Skip to content

Musicais: ChicagoNine

Embora sejam dirigidos pelo mesmo diretor, os dois musicais são muito diferentes em termos de qualidade. As principais razões são: qualidade do enredo, desempenho do elenco e qualidade dos números musicais. Leia para entender por quê.

Veterano na Broadway, o diretor Rob Marshall possui um jeito bastante peculiar – e não necessariamente virtuoso – de dirigir seus musicais. Técnicas semelhantes foram utilizadas em duas produções lançadas pelo norte-americano nesta última década.

A primeira, Chicago (Chicago, EUA, 2002) fez um sucesso estrondoso, conquistando seis estatuetas do Oscar (incluindo Melhor Filme). O segundo, pelo contrário, Nine (Nine, EUA, 2009) teve baixo reconhecimento e recebeu muitas críticas. Neste artigo, pretendo comparar os dois musicais e entender por que o primeiro é superior ao segundo.

Sinopses

Cena do musical Chicago

Chicago traz a temática da busca pela fama. Passando-se na cidade que dá título ao filme, vemos um cabaré, em que a famosa cantora e dançarina Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones) apresenta-se sozinha em um número que deveria dividir com sua irmã. Não se demora para descobrir que ela a matou, junto com seu marido. Na prisão, fica na mesma ala que sua admiradora Roxie Hart (Reneé Zellweger), a qual matou o amante na mesma noite.


[Vídeo da canção “I can’t do it alone” de Chicago]

Encarceradas, ambas recebem o apoio de Mama (Queen Latifah), a chefe da Ala das Assassinas que, além de companhia, oferece as oportunidades para sair da prisão, apresentando a elas o grande advogado de defesa Billy Flynn (Richard Gere), que nunca perdeu um caso e sempre consegue tirar qualquer assassina da prisão, usando a imprensa, as brechas da lei penal, suas clientes e, vale a pena destacar, o ambiente de Chicago.

Cena do musical Nine

Nine, por sua vez, baseia-se na principal obra do cineasta italiano Federico Fellini, o longa-metragem (1963). Retratando os dilemas de Guido Contini (Daniel Day-Lewis), um diretor de cinema em crise de inspiração, a fita traz suas maiores questões à tona: os problemas com sua mulher (Marion Cotillard), o envolvimento com sua amante (Penélope Cruz), a pressão dos jornalistas que tentam enxergar uma fase de decadência etc. Mesclando o processo de produção do filme de Contini com lembranças das mais variadas, a ideia é dar luz a todas as culpas e responsabilidades que o protagonista enfrenta.

Elenco e enredo

Ambos os filmes contam com um bom elenco, mas o desempenho deles variou brutalmente. Chicago conta com a atuação precisa de Zeta-Jones, que consegue dar um ar de superioridades à sua personagem mesmo nos piores momentos. Sua performance parece ser a de uma antagonista quando, no contexto do enredo, Velma Kelly acaba sendo uma vítima. Ótima atuação, que rendeu-lhe um Oscar.

Zeta-Jones e Zellweger: elenco afiado de Chicago faz diferença

Ainda traz a atuação eficiente, porém sempre estranha, de Reneé Zellweger, que constrói uma personagem bastante caricata. Os seus exageros podem ter incomodado algumas pessoas mas, tendo em vista que fazia o papel de uma obcecada pela fama, esses extremos são aceitáveis. O destaque fica por conta de Richard Gere, o qual dá um show. Queen Latifah manda muito bem como uma chefa aparentemente autoritária que, no fundo, sente atração pelas mulheres detidas. Em suma, o elenco de Chicago está, acima de tudo, bastante afiado nos seus papéis.

Não pode se dizer o mesmo de Nine: tirando Cotillard, Cruz e, em alguns momentos, Day-Lewis, o resto está perdido no seu papel. Estou me referindo à Nicole Kidman, à Judi Dench, à Sophia Loren e outras. É raro dizer que Judi Dench está sem graça, justo ela, que tem tantas atuações marcantes, como em Notas Sobre um Escândalo (2006). Nicole Kidman, por sua vez, consegue passar de atuações brilhantes, como em As Horas (2002) para as macabras, dentre Austrália (2008).

Elenco feminino de Nine: uma ou outra ali salva

A principal diferença entre os dois filmes, que influencia em todo resto, especialmente no desempenho do elenco (não basta o ator ser bom: a sua personagem tem que se encaixar na história) é o enredo ou, mais precisamente, o sentido de tudo aquilo que estamos vendo. Chicago, neste ponto, ousa bem menos que Nine, mas cumpre seu objetivo. Partimos do pressuposto que a fita se propõe a contar uma história de fama, prisão e justiça em Chicago. Então, ótimo, porque é exatamente isso que ela faz, de um jeito divertido, dinâmico e envolvente.

Nine, na tentativa de ir além, ousando abarcar a principal obra de Fellini, frustrou complemente, resumindo-se a mostrar moças bonitas cantando músicas numa história que até tenta mas, infelizmente, não dá liga. Não existe uma linha de desenvolvimento clara neste filme. Chegam a parecer aleatórias as apresentações, como se fossem uma soma de esquetes cômico-musicais.

Técnica de se construir o musical

O diretor Rob Marshall é coreógrafo e diretor de teatro. No cinema, ele parece trazer muitos dos elementos teatrais para a grande tela, o que dá um tom diferente, mas nem sempre funciona. Na realidade, quase todos os musicais cinematográficos vieram de versões teatrais, mas a adaptação faz toda a diferença.

Em O Fantasma da Ópera (2004), temos um bom exemplo de uma produção sem tantos elementos teatrais: é um filme musical. Isto porque as tomadas, o modo dos personagens interagirem, os esquetes musicais, o cenário, enfim, o conjunto lembra muito mais um filme do que uma peça de teatro. Um exemplo oposto é Cats (1998), a filmagem de uma peça, no qual o cenário é nitidamente um palco e os atores interagem como se houvesse espectadores logo à sua frente.


[Vídeo de canção “Be Italian” de Nine]

A verdade é que Rob Marshall, talvez pela sua bagagem, não consegue – ou até hoje não pretendeu – eliminar a sensação de se estar num teatro assistindo-o. Isto é o que a crítica Isabela Boscov chamou de proscênio (isto é, a frente do palco). Mas essa técnica funciona muito bem em Chicago, mas não em Nine. Por quê?

Chicago: uma produção com sentido

Porque Chicago foca na personagem de Reneé Zellweger. Almejando o sucesso inspirado numa famosa cantora e dançarina de cabaré, ela sempre se imagina no palco. Bem como o faz quando conhece alguém ou vive alguma situação. As músicas não fazem parte da cena em si. Elas estão a serviço da imaginação, são idealizadas pela protagonista e pelo próprio ambiente.

É como se as músicas estivessem em um universo paralelo onde reinam as sensações. Assim, se estou de mau humor, vou cantar com raiva; se sou soberano, me imponho no palco. Todo esse misto de estados influenciam no modo de cantar, na letra da música, na instrumentação etc.

Nine: peca pela falta de liga

Em Nine, o mesmo artifício foi utilizado, isto é, a música como uma segunda realidade. Mas não se obteve o mesmo resultado. A principal razão é que Chicago é pensado num cabaré, onde há um palco, enquanto que Nine se trata da produção de filmes, não havendo tanto sentido explorar o teatro. Além disso, as canções eram quase todas executadas num estúdio de filmagem que servia como palco para uma suposta apresentação.

Para terminar a análise, não há dúvidas de que as músicas de Chicago são muito melhores, especialmente as letras. As canções de Nine eram, para ser bem direto, cafonas. Talvez só não sejam mais cafonas que as de Moulin Rouge (2001) (os defensores desse musical que me perdoem: por mais que Moulin Rouge tenha todo um aspecto inovador, ele não deixa de ser absolutamente cafona e irritante.)

Conclusão

O diretor Rob Marshall

Logo, as principais razões que explicam porque Chicago é um musical de melhor qualidade em relação a Nine são: qualidade do enredo, uma vez que Chicago fez muito mais com muito menos; desempenho do elenco, que variou bastante talvez por influência do primeiro fator (história que não dá sentido aos personagens enfraquece sua atuação: por mais que seja boa, parece sempre descontextualizada); e qualidade dos números musicais, tanto pela composição das músicas quanto pela sensação de se estar em frente ao palco, o que funcionou muito bem em Chicago e mal em Nine.

Todas essas diferenças fazem com que se veja Chicago como um ótimo musical: muito bem produzido, com boas canções, um ritmo envolvente, montagem bastante interessante, ótimo roteiro etc. Enquanto que a Nine só cabem as lembranças de que aquele diretor já conseguiu fazer coisas melhores.

Anúncios

V de Vingança (V for Vendetta)

Poético e envolvente, o filme conta com boas cenas de ação e diálogos que contam o andamento do plano do enigmático personagem V pelo fim do autoritarismo de um Partido que a tudo e todos tem controle.

Avaliação: muito bom

Marcando a estreia do australiano James McTeigue na direção, após ter auxiliado o trabalho dos irmãos Wachowski (trilogia Matrix), agora produtores e roteiristas, V de Vingança (V for Vendetta, Alemanha/EUA, 2005) é a adaptação para os cinemas da HQ dos renomados autores Alan Moore e David Lloyd.

Lembrando muito o clássico 1984, de George Orwell, o filme constrói um Reino Unido tomado por um Partido autoritário, cujo poder tem como consequência um controle intenso sobre a população. No entanto, um misterioso – e sobretudo poético – personagem mascarado, conhecido por V (Hugo Weaving), confronta o partido e transmite uma mensagem a toda a nação: dentro de um ano, a situação vai mudar, quando o mesmo planeja destruir o edifício do Parlamento Britânica.

O mascarado V (Hugo Weaving)

Quando a funcionária de um meio de comunicação Evey Hammond (Natalie Portman), salva por V em um dado momento, resolve ajudá-lo, torna-se um meio termo entre cúmplice e refém. Dessa forma, os membros do Partido, liderados por Adam Sutler (John Hurt), o Chanceler, tentam capturá-la como forma de obter informações do mascarado. No entanto, V, motivado por uma vingança de um passado sofrido por conta do Partido, esconde muitos segredos e pretende levar seu plano até o final.

Embora de temática forte e bastante política, V de Vingança possui uma leveza beirando à ingenuidade. O enigmático protagonista, que possui um gosto pela erudição e é incrivelmente habilidoso no combate, encanta o espectador pela sua desafiadora mensagem de esperança. Em 1984, o protagonista também arma contra o Partido, mas é incomparavelmente menos imponente.

Evey Hammond (Natalie Portman) como um misto de cúmplice e aprendiz

Desse modo, mesclando falas otimistas, poéticas e ao mesmo tempo contundentes, V investe no seu objetivo e parece ter tudo muito bem planejado. Paralelamente, Evey, apesar de contribuir um pouco, torna-se uma grande aprendiz – mesmo a contragosto – dos valores pregados por V. Há relação desses valores com a anarquia. Não por acaso, o símbolo adotado por V é desta letra envolta por um círculo, na cor vermelha. De cabeça para baixo, é o ícone anarquista.

A cena em que Evey é levada a uma prisão e tem contato com bilhetes escritos por uma moça que foi detida por ser homossexual, é uma das mais bonitas do filme e ilustra bem a luta que se prega pela justiça, liberdade individual e igualdade de direitos. Nessas esferas, o filme expande seu significado.

O Chanceler (John Hurt): semelhanças com 1984, de Orwell?

O lado culto que o filme evoca é uma constante. V, por exemplo, executa demolições de prédios imaginando-se como regente de uma orquestra (detalhe: nas suas bombas, há vários fogos de artifício, que dão um ar de festa). Outro personagem, companheiro de Evey, cozinha ao som de bossa nova.

Uma boa produção, que conta com ótimas cenas de ação, misturada com um roteiro interessante que traz uma história envolvente, uma vez que V corre atrás dos “cobrões” do Partido, além de toda a poesia, resultam no sucesso do filme. De V de Vingança podemos concluir que os governos autoritários podem até obter controle político e ideológico, mas nunca vão calar as ideias e a voz dos dissidentes.

Direção: James McTeigue
País: Alemanha/EUA
Ano: 2005

Elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Sinéad Cusack, Nicolas de Pruyssenaere, Stephen Fry, Selina Giles, Rupert Graves, Keith How, John Hurt, Tim Pigott-Smith, Stephen Rea
Produção: Grant Hill, Joel Silver, Andy Wachowski, Larry Wachowski
Roteiro: Andy Wachowski, Larry Wachowski, baseado nos quadrinhos de David Lloyd e Alan Moore
Fotografia: Adrian Biddle
Trilha Sonora: Dario Marianelli

O Cheiro do Ralo

Contando a instigante história de um homem que acha que pode comprar tudo, inclusive a bunda pela qual se apaixona, o filme traz à tona questionamentos éticos e existenciais, passando, sem escape, pelas relações humanas.

Avaliação: muito bom

Criativo, provocante e autêntico são três palavras que definem o longa-metragem brasileiro O Cheiro do Ralo (Brasil, 2007), do pernambucano Heitor Dhalia, o mesmo de À Deriva (2009). Baseada na obra homônima de Lourenço Mutarelli, a adaptação, de baixíssimo orçamento e pouco impacto, traz reflexões oportunas sobre a dignidade frente ao poder de compra e questões sobre os relacionamentos humanos.

Selton Mello interpreta, com maestria, Lourenço, um comprador profissional. Ele fica na sua agência, resguardado por um segurança incapaz de intimidar alguém (Lourenço Mutarelli, o próprio autor do livro), esperando que os clientes – geralmente em situação de crise financeira – tragam objetos que para eles tenham algum valor e, assim, negocia, jogando o preço lá embaixo e, com frequência, humilhando o cliente.

Lourenço (Selton Mello): quais são os limites para alguém em crise existencial?

Tudo começa quando ele se apaixona por uma bunda, para ser bem direto. A bunda é de uma bonita e supostamente ingênua funcionária de uma lanchonete (Paula Braun), da qual não sabemos o nome e que abre o filme com uma câmera seguindo seu traseiro até o trabalho. Lourenço acredita que pode, inclusive, comprar sua bunda.

Alternando várias cenas as quais ilustram a arrogância de Lourenço na hora das negociações com outros momentos da insossa vida dele (vide seu relacionamento com sua esposa, papel de Fabiana Guglielmetti), o que mais se repete é a menção ao tal cheiro do ralo. Este ralo pertence ao banheiro da sua agência. O protagonista deixa bem claro o cheiro vem do ralo, e não dele próprio.

Um homem que precisa de dinheiro: vende-se a dignidade?

A metáfora do cheiro do ralo pode ser entendida por vários ângulos. Partindo do princípio de que Lourenço se encontra numa crise existencial, em que nada parece ter sentido para ele (algo como o absurdo de Albert Camus), o ralo seria justamente aquela porção de nós em que despejamos o que não nos interessa e que, ao mesmo tempo, se faz misterioso para nós mesmos. Ou alguém já parou para analisar o que há no ralo de casa?

Entretanto, existem coisas nesse ralo, a despeito dele parecer apenas um buraco escuro. E muitas dessas coisas, se não são pensadas ou reviradas, podem incidir sobre nossas vidas e nossos relacionamentos, em outras palavras, o cheiro exalado pelo ralo. Esse cheiro, em contrapartida, é falsamente compensado pela sensação de vitória que se dá quando adquirimos muitos objetos ou passamos por cima de outras pessoas: exatamente o que Lourenço faz o filme todo. Ele supre sua crise por essas atitudes, mas continua negligenciando o ralo.

O que Lourenço mais contempla: a bunda (Paula Braun)

Enfim, há várias falas inteligentes, em uma delas se diz algo assim: “A culpa do cheiro do ralo é da bunda. Para poder ver a bunda, o preço é comer o lanche ruim daquela lanchonete. Como o lanche não cai bem, preciso usar o banheiro, e o ralo fede.”

O surpreendente é que o filme foi produzido com um orçamento muito baixo. Praticamente ninguém queria apoiar um filme que se chamasse O Cheiro do Ralo e que contasse a história de um homem apaixonado por uma bunda. Mesmo não parecendo promissor, um bom roteiro, com bom elenco, já foram suficientes para dar vida a essa história. O orçamento foi de apenas R$ 315 mil e, segundo o diretor Dhalia, muitos que trabalharam no filme aceitaram não receber remuneração. Além do mais, a filmagem tinha que ser realizada em apenas um mês, logo, não foi possível montar o travelling ou utilizar outras técnicas de filmagem que demandariam mais tempo.

- 'Esse olho já viu tudo.' - 'Ele não viu tudo. Ele não viu a bunda.'

Essa marca está impressa no filme, na sua produção simplista, porém suficiente. Simboliza tanto o esforço dos produtores, que insistiram num filme desses, quanto a triste constatação da cultura brasileira, em que o incentivo sobre a cultura ainda é irrisório. Enquanto gasta-se muito dinheiro com as novelas ou com reality show, fita como essas, profundas e com conteúdo, não encontram apoio nenhum.

Da mesma forma, o filme atingiu um público pequeno e mal é comentado, já praticamente caiu no ostracismo. Por outro lado, as produções comerciais lotam salas. Ainda há muito para o Brasil aprender, mas O Cheiro do Ralo nos prova que, quando se quer fazer algo criativo e original, mesmo sem muito suporte é possível dar cabo às realizações.

Diretor: Heitor Dhalia
País: Brasil
Ano: 2007

Elenco: Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Sílvia Lourenço
Produção: Heitor Dhalia, Joana Mariani, Marcelo Doria, Matias Mariani, Rodrigo Teixeira
Roteiro: Marçal Aquino e Heitor Dhalia, baseado em obra de Lourenço Mutarelli
Fotografia: José Roberto Eliezer
Trilha Sonora: Apollo Nove

Entre os Muros da Escola (Entre les Murs)

Marcado por um realismo muito bem executado, o filme retrata a realidade educacional francesa e sugere um panorama da sociedade francesa contemporânea. Ótima produção e muito rico em conteúdo.

Avaliação: muito bom

O longa-metragem Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, França, 2008), dirigido por Laurent Cantet, assemelha-se, em alguns pontos, com outro filme francês que retrata o cotidiano escolar, Nosso Professor é um Heroi (1996), mas o primeiro ganha por conter muito mais significados e realismo. O filme pode ser analisado por dois prismas principais: a questão da educação em si e o reflexo da mesma como um panorama da sociedade francesa contemporânea.

François Bégaudeau na sala de aula: cenário majoritário

Ficando, literalmente, entre os muros de uma escola pública da periferia parisiense, retrata-se um ano letivo de alunos da sétima série. Focando na aula do professor de língua francesa, François (François Bégaudeau), docente que já trabalha na escola há alguns anos, acompanhamos os conflitos que ocorrem entre alguns alunos e alunas – aquelas “figuras carimbadas” – e o professor, por praticamente qualquer coisa.

À primeira vista, diante de tantos atritos, atestamos os problemas na convivência em sala de aula e na relação professor-aluno, obstáculos que podem ser facilmente comparados com a realidade brasileira. A questão não é só uma dificuldade de se ensinar, mas principalmente no de construir um sentido para tudo aquilo: por que a escola? Esse questionamento tem se mostrado bastante presente no panorama educacional, configurando o que se conhece pela crise do ensino e suas derivações: má qualidade, “fracasso escolar”, gestão administrativa deficiente, pouco investimento etc.

A questão de como ensinar diante da diversidade de alunos e dos problemas da escola

No filme, logo após a reunião que abre o ano letivo, vemos um professor veterano com a lista de alunos indicando “esse é bonzinho, esse não é bonzinho, esse não é nem um pouco bonzinho”. A lista não surpreende pela quantidade de alunos classificados como “maus”, e sim pela construção a priori da imagem dos alunos, o que certamente influencia na maneira como o professor vai lidar com os mesmos.

Vemos, para citar algumas cenas, os estudantes questionando por que o professor François sempre utiliza nomes americanos, como Bob, para servir de exemplo em frases de língua francesa, em vez de nomes africanos ou asiáticos. Isso faz muito sentido no quadro francês, em que há uma miscigenação muito grande. Essa questão fica muito clara no filme e é justamente neste ponto em que ele extrapola os “muros da escola”.

Os professores reunidos: entre crises, preconceitos, desencantos e também vontade

Há outras partes interessantes: a aluna que não se interessa nem um pouco pela leitura do Diário de Anne Frank, adotado pelo professor, e diz ter lido, se interessado e entendido A República, de Platão. Assim como uma outra aluna, muito quieta, que passa invisível ao espectador o filme todo e diz não ter aprendido nada no final do ano letivo.

É possível ministrar um curso inteiro sobre educação apenas usando o conteúdo do filme. Por isso, para não me alongar muito nas questões levantadas, vou comentar alguns pontos da produção.

François na literatura, roteiro e interpretação: autor, coautor e ator de si mesmo

A grande marca do filme é o realismo, narrado em tom semidocumental. Primeiramente, não há trilha sonora e as imagens são captadas, em grande parte, por câmeras de mão, que tem o mérito dar a sensação de inclusão do espectador na cena.

O elenco é composto majoritariamente por atores não profissionais. Os alunos, por exemplo, são mesmo estudantes da sétima série. Assim como o protagonista, François Bégaudeau, que escreveu o livro que serviu de base, participou da elaboração do roteiro e atua no filme interpretando a si mesmo.

Cartaz original do filme

Outro ponto, este bastante interessante, é que foram permitidas muitas improvisações sobre o roteiro, de modo que a aula soasse o mais natural possível. Logo, nem tudo o que vemos foi ensaiado, sendo produto do próprio clima da aula que era recriada.

Logo, em termos de produção e conteúdo, esse filme acerta muito bem. Vale a pena conferir e refletir os problemas levantados em Entre os Muros da Escola.

Direção: Laurent Cantet
País: França
Ano: 2008

Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Bounaïdja Rachedi, Juliette Demaille, Dalla Doucoure
Produção: Caroline Benjo, Carole Scotta
Roteiro: Robin Campillo, Laurent Cantet, François Bégaudeau, baseado em livro homônimo de François Bégaudeau
Fotografia: Pierre Milon

Toy Story 3 (Toy Story 3)

Ótima produção, belíssima trilha sonora e um roteiro impecável resultam num filme criativo, com uma história interessante e uma temática que deve comover principalmente aos adultos. Imperdível.

Avaliação: ótimo

Os estúdios da Disney-Pixar conseguem se superar a cada produção. Depois do sucesso de Up – Altas Aventuras (2009), que levou o Oscar 2010 de Melhor Animação, aparece agora outra belíssima animação: Toy Story 3 (Toy Story 3, EUA, 2010), dirigido por Lee Unkrich, que editou as duas primeiras sequências da saga Toy Story e codirigiu Procurando Nemo (2003).

Os personagens criativos (e já conhecidos) da saga

Em Toy Story 1 (1995), a primeira animação a ser realizada inteiramente no computador, o brinquedo caubói Woody fica enciumado quando seu dono, Andy, adquire – e dá muito mais atenção – ao boneco galáctico Buzz. Na sequência, Toy Story 2 (1999), Woody é “sequestrado” por um colecionador que o ambiciona muito; nesta aventura, conhece a caubói Jessie, que se integra aos bonecos de Andy. Por fim, nesta última aventura, Toy Story 3, o menino Andy já cresceu, está prestes a ir para a faculdade e aí surge aquela questão: o que fazer com os meus brinquedos?

Iniciando com uma aventura que representa a grandeza da imaginação infantil, o filme certamente vai divertir as crianças, uma vez que é recheado de muito humor e produzido com uma beleza ímpar. Tanto a imagem quanto a trilha sonora estão de parabéns. Em três dimensões, então, fica ainda melhor. Não que o filme ataque coisas em direção ao espectador – esse tipo de recurso já não é mais utilizado nos filmes 3D sérios –, mas a noção de profundidade é bastante realçada.

O marido metrossexual da Barbie, Ken, uma sátira muito cômica

A diferença desta terceira, e aparentemente última parte da saga, é a temática, desta vez muito mais sensível. Quando se cresce, entra a questão de desfazer dos seus brinquedos, o que de certa forma é deixar lado algumas lembranças. A nostalgia que esse filme trás, sensação que só será captada por quem já deixou a infância, foi muito bem trabalhada e, para quem já assistiu, resultou num final bastante comovente. Dizem até que foi bom o filme ter saído em 3D, para que os óculos escondessem as lágrimas.

A equipe da Disney-Pixar é sensacional. Consegue criar personagens sensacionais, com total criatividade, e compõe uma bela e agitada história num roteiro simplesmente magnífico. Forte candidato ao Oscar 2011 de Melhor Animação e, talvez, o melhor dos três filmes da saga Toy Story. Assistam e se comovam.

O urso Lotso, simpático vilão maldoso, ao lado de Buzz e Woody

Direção: Lee Unkrich
País: EUA
Ano: 2010

Elenco (vozes na versão original): Tom Hanks, Michael Keaton, Joan Cusack, Tim Allen, John Ratzenberger, Wallace Shaw, Josi Benson, Ned Beatty, Don Rickles, Estelle Harris, Whoopi Goldberg, Richard Kind, Ned Beatty, John MorrisRatzenberger, Jordan Nagai
Produção: Darla K. Anderson
Roteiro: Michael Arndt
Trilha Sonora: Randy Newman
Estúdio: Walt Disney Pictures / Pixar Animation Studios

A Partida (Okuribito)

O filme trata com suavidade um tema forte e conseguiu conquistar muitas plateia, valendo-lhe o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. No entanto, há pontos fracos um tanto patéticos.

Avaliação: bom

Há mais de 30 anos sem levar um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o Japão conquista no ano passado mais uma estatueta pelas mãos de Yojiro Takita, na direção do longa-metragem de sucesso A Partida (Okuribito, Japão, 2008). Tratando com delicadeza temas tabus como a aceitação da morte, a fita conquistou as platéias e superou fortes concorrentes, dentre Valsa com Bashir (2008) e Entre os Muros da Escola (2008).

Daigo (Masahiro Motoki) e sua esposa Mika (Ryoko Hirosue)

Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) é um dedicado violoncelista que se vê desempregado após a dissolução de sua orquestra. Entristecido e sem opções, volta para sua cidade natal acompanhado de sua solícita esposa Mika (Ryoko Hirosue). Procurando emprego, aceita trabalhar, após certa relutância, numa agência que prepara os mortos para a sua “partida”, num ritual tradicional japonês, que envolve limpeza, vestimenta e maquiagem do corpo em frente à família em luto. No entanto, Daigo esconde da esposa e dos amigos o seu emprego, com medo de ser discriminado.

É um drama muito bonito e triste, com cenas de luto bastante expressivas. O protagonista, sem rumo, se vê diante de aprendizados profundos. Trabalhando diretamente com a morte, como era de se esperar, adquire uma outra visão sobre a própria vida. A maneira como isso vai sendo feita e escolha do diretor em mesclar um tema sombrio dentro de uma história mais suave são os pontos fortes.

Ritual tradicional japonês executado por Daigo e seu chefe Ikuei Sasaki (Tsutomu Yamazaki)

No entanto, o filme tem vários pontos fracos. O primeiro é tentar adicionar humor onde não tem, forçando a barra em momentos com atuações exagerados e por vezes patéticos, sobretudo do papel de Ryoko Hirosue, que mais parece um anime. Há cenas irritantes nesse sentido.

Em outras cenas, tentou-se dar um tratamento poético que, a mim, soou muito cafona. Uma delas é colocar o músico tocando seu violoncelo num campo aberto, ao som de uma bonita trilha sonora orquestrada. Não, esse tipo de imagem não convence. Ela tem um apelo visual, mas é muito clichê.

Daigo tocando seu cello: cena de muito apelo

Em contrapartida, é uma produção muito boa, com um roteiro bem escrito. As reviravoltas são adequadas e a trilha sonora, como era de se esperar, é muito bonita.

Mesmo retratando rituais que não ocorrem na cultura ocidental, A Partida conseguiu se aproximar bastante desta plateia. Nas mãos dos japoneses, mostrou-se um gênero tocante e de muito sucesso.

Direção: Yojiro Takita
País: Japão
Ano: 2008

Elenco: Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshiyuki, Kimiko Yo, Takashi Sasano
Produção: Toshiaki Nakazawa, Toshihisa Watai e Ichirô Nobukuni
Roteiro: Kundo Koyama
Fotografia: Takeshi Hamada
Trilha Sonora: Joe Hisaishi

Milk – A Voz da Igualdade (Milk)

Cinebiografia do primeiro homossexual assumido a ser eleito a um cargo público nos Estados Unidos, o filme faz um bom retrato, mas é pouco ousado.

Avaliação: bom

Vindo de um diretor como Gus Van Sant, acostumado a lançar filmes intrigantes, dentre a reconstrução cult do massacre de Columbine Elefante (2003) e a cinebiografia de Kurt Cobain Últimas Dias (2005), espera-se sempre algo ousado. Essa expectativa é reforçada quando o diretor, homossexual assumido, se propõe a dirigir um filme que conta a luta de Harvey Milk, primeiro gay assumido a ser eleito a um cargo público nos Estados Unidos, no longa-metragem Milk – A Voz da Igualdade (Milk, EUA, 2008).

A fita, embora boa, resultou num enquadramento um tanto convencional e pouco instigante da personalidade de Milk, interpretado com maestria por Sean Penn, numa atuação vencedora do Oscar (o filme foi indicado a oito). A história é a seguinte: Harvey Milk, inconformado de chegar aos 40 anos sem ter feito nada de importante, resolve se mudar para Califórnia, acompanhado de seu namorado (James Franco), abrindo uma loja de revelação fotográfica.

Harvey Milk (Sean Penn): pioneiro nos Estados Unidos

Sabendo da repressão que existia, inclusive por parte da polícia, sobre os gays, Milk assume uma postura desafiadora e percebe que, para a situação mudar, é necessário que alguém tome uma iniciativa. Candidatando-se a supervisor distrital, tem de enfrentas muitas derrotas e o discurso retrógrado de seus oponentes, até alcançar o tão desejado cargo. Lutando pelos direitos dos homossexuais, um ano após ser eleito é assassinado por um adversário de campanha, em 1978.

Com fotografia de Harris Savides (Zodíaco, O Gângster), o filme faz uma ótima reconstrução do ambiente californiano da década de 70 e capta seus personagens com câmeras muito espertas, quase que flagrando-os em momentos íntimos. Além disso, o filme adquire um tom semidocumental, mesclando imagens da época. Direção muito boa, resultado também. Sem contar as atuações.

Apoiadores do movimento gay na Califórnia

O problema do filme não é tanto da parte técnica, mas da falta de ousadia. É, sim, um mérito não mitificar a imagem de Milk, isto é, o político não é transformado num herói, com a “personalidade perfeita”, como é feito em Invictus (2009) com Nelson Mandela. A importância de Milk fica mais pelo lado didático em que é exposto do que pela sentimentalidade que poderia ter envolvido mais o espectador com a história.

O resultado é um filme um tanto frio. O roteiro, escrito por Dustin Lance Black, outro homossexual assumido, é muito bom (também levou o Oscar) e, digamos, é o responsável tanto pelo sucesso que a fita obtém ao retratar o papel de Milk na causa gay, quanto pela frieza e certo distanciamento que a mesma adquire. Em outras palavras, não se sai da sessão querendo saber mais da vida de Milk.

Cartaz do filme

Gus Van Sant parece fazer de Milk – A Voz da Igualdade uma plataforma para expor seus ideais. Não que seja ruim. Foi bem executado, mas por um caminho meio tradicional, sendo apenas uma cinebiografia e não aquele filme, envolvente e interessante. Vale destacar que Sean Penn, no discurso da cerimônia do Oscar, disse para que todos aqueles que votaram contra o matrimônio gay se envergonhassem, repensassem a questão.

Sendo um bom filme ou não, Milk tem o valor da mensagem que carrega: um chamado de igualdade num tempo em que os homossexuais ainda têm que se esconder em muitos lugares, sofrendo da alienação da sociedade que insiste em os reprimir. Van Sant está tentando cumprir seu papel nesta luta. Ousado ou não, é sempre pertinente.

Direção: Gus Van Sant
País: EUA
Ano: 2008

Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, Emile Hirsch, James Franco, Diego Luna, Brandon Boyce, Kelvin Yu, Lucas Grabeel, Alison Pill, Victor Garber, Denis O’Hare, Howard Rosenman, Stephen Spinella, Ted Jan Roberts, Tom Ammiano
Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks, Michael London
Roteiro: Dustin Lance Black
Fotografia: Harris Savides
Trilha Sonora: Danny Elfman