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O Cheiro do Ralo

21 / julho / 2010

Contando a instigante história de um homem que acha que pode comprar tudo, inclusive a bunda pela qual se apaixona, o filme traz à tona questionamentos éticos e existenciais, passando, sem escape, pelas relações humanas.

Avaliação: muito bom

Criativo, provocante e autêntico são três palavras que definem o longa-metragem brasileiro O Cheiro do Ralo (Brasil, 2007), do pernambucano Heitor Dhalia, o mesmo de À Deriva (2009). Baseada na obra homônima de Lourenço Mutarelli, a adaptação, de baixíssimo orçamento e pouco impacto, traz reflexões oportunas sobre a dignidade frente ao poder de compra e questões sobre os relacionamentos humanos.

Selton Mello interpreta, com maestria, Lourenço, um comprador profissional. Ele fica na sua agência, resguardado por um segurança incapaz de intimidar alguém (Lourenço Mutarelli, o próprio autor do livro), esperando que os clientes – geralmente em situação de crise financeira – tragam objetos que para eles tenham algum valor e, assim, negocia, jogando o preço lá embaixo e, com frequência, humilhando o cliente.

Lourenço (Selton Mello): quais são os limites para alguém em crise existencial?

Tudo começa quando ele se apaixona por uma bunda, para ser bem direto. A bunda é de uma bonita e supostamente ingênua funcionária de uma lanchonete (Paula Braun), da qual não sabemos o nome e que abre o filme com uma câmera seguindo seu traseiro até o trabalho. Lourenço acredita que pode, inclusive, comprar sua bunda.

Alternando várias cenas as quais ilustram a arrogância de Lourenço na hora das negociações com outros momentos da insossa vida dele (vide seu relacionamento com sua esposa, papel de Fabiana Guglielmetti), o que mais se repete é a menção ao tal cheiro do ralo. Este ralo pertence ao banheiro da sua agência. O protagonista deixa bem claro o cheiro vem do ralo, e não dele próprio.

Um homem que precisa de dinheiro: vende-se a dignidade?

A metáfora do cheiro do ralo pode ser entendida por vários ângulos. Partindo do princípio de que Lourenço se encontra numa crise existencial, em que nada parece ter sentido para ele (algo como o absurdo de Albert Camus), o ralo seria justamente aquela porção de nós em que despejamos o que não nos interessa e que, ao mesmo tempo, se faz misterioso para nós mesmos. Ou alguém já parou para analisar o que há no ralo de casa?

Entretanto, existem coisas nesse ralo, a despeito dele parecer apenas um buraco escuro. E muitas dessas coisas, se não são pensadas ou reviradas, podem incidir sobre nossas vidas e nossos relacionamentos, em outras palavras, o cheiro exalado pelo ralo. Esse cheiro, em contrapartida, é falsamente compensado pela sensação de vitória que se dá quando adquirimos muitos objetos ou passamos por cima de outras pessoas: exatamente o que Lourenço faz o filme todo. Ele supre sua crise por essas atitudes, mas continua negligenciando o ralo.

O que Lourenço mais contempla: a bunda (Paula Braun)

Enfim, há várias falas inteligentes, em uma delas se diz algo assim: “A culpa do cheiro do ralo é da bunda. Para poder ver a bunda, o preço é comer o lanche ruim daquela lanchonete. Como o lanche não cai bem, preciso usar o banheiro, e o ralo fede.”

O surpreendente é que o filme foi produzido com um orçamento muito baixo. Praticamente ninguém queria apoiar um filme que se chamasse O Cheiro do Ralo e que contasse a história de um homem apaixonado por uma bunda. Mesmo não parecendo promissor, um bom roteiro, com bom elenco, já foram suficientes para dar vida a essa história. O orçamento foi de apenas R$ 315 mil e, segundo o diretor Dhalia, muitos que trabalharam no filme aceitaram não receber remuneração. Além do mais, a filmagem tinha que ser realizada em apenas um mês, logo, não foi possível montar o travelling ou utilizar outras técnicas de filmagem que demandariam mais tempo.

- 'Esse olho já viu tudo.' - 'Ele não viu tudo. Ele não viu a bunda.'

Essa marca está impressa no filme, na sua produção simplista, porém suficiente. Simboliza tanto o esforço dos produtores, que insistiram num filme desses, quanto a triste constatação da cultura brasileira, em que o incentivo sobre a cultura ainda é irrisório. Enquanto gasta-se muito dinheiro com as novelas ou com reality show, fita como essas, profundas e com conteúdo, não encontram apoio nenhum.

Da mesma forma, o filme atingiu um público pequeno e mal é comentado, já praticamente caiu no ostracismo. Por outro lado, as produções comerciais lotam salas. Ainda há muito para o Brasil aprender, mas O Cheiro do Ralo nos prova que, quando se quer fazer algo criativo e original, mesmo sem muito suporte é possível dar cabo às realizações.

Diretor: Heitor Dhalia
País: Brasil
Ano: 2007

Elenco: Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Sílvia Lourenço
Produção: Heitor Dhalia, Joana Mariani, Marcelo Doria, Matias Mariani, Rodrigo Teixeira
Roteiro: Marçal Aquino e Heitor Dhalia, baseado em obra de Lourenço Mutarelli
Fotografia: José Roberto Eliezer
Trilha Sonora: Apollo Nove

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4 Comentários
  1. Mais um filme que eu não conhecia.

    O enredo é bem interessante e foge da mesmice de sempre. Gostei da sua comparação do mundo absurdo de Camus.

    Abraços!

  2. Eu não vi, acredita?

    A abordagem e o contexto, muito bem pontuado por você, fortaleceu meu interesse.

    Do Heitor Dhalia eu gosto muito do filme dele Nina! Recomendo.

    Abraço

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  1. O Cheiro do Ralo « 3dmar.com

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