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Anticristo (Antichrist)

14 / abril / 2010

Pesado, explícito e todo construído sobre problemas psicológicos, o filme utiliza uma história promissora como pano de fundo para uma coletânea de cenas chocantes, cuja legitimidade pode ser questionada. Profundo ou apenas exagerado? As intenções do diretor são uma incógnita.

Avaliação: regular

Altamente polêmico, o longa-metragem de Lars Von Trier, diretor dinamarquês que dirigiu obras-primas como Dogville (2003) e Dançando no Escuro (2000), parece ter sido feito para chocar. Anticristo (Antichrist, Dinamarca/Alemanha/França/Suécia/Itália/Polônia, 2009) é um drama psicológico com forte toque de terror. A título de curiosidade: o roteiro, assinado pelo próprio diretor, foi escrito durante uma depressão profunda. Qual é o resultado, portanto?

Sequência de abertura: tragédia prenunciada

Abrindo com uma ótima cena de início, um casal sem nome faz sexo. Filmada em câmera lenta, preto-e-branco e fundo de música clássica (Lascia Ch’io Pianga de Georg Friedrich Händel), a sequência já nasce com alto impacto visual. A tragédia, presente ao longo de todo o filme, começa já nos primeiros minutos com o filho do casal conseguindo escapar do berço e indo em direção à morte que o espera através da janela do sobrado da família. Assim encerra-se o prólogo, como a própria fita dividida em capítulos nomeia.

Após a morte do seu único filho, a mãe (interpretada por Charlotte Gainsbourg) entra em luto profundo. Seu marido (papel de Willem Dafoe), sendo psicólogo, resolve ele mesmo desenvolver um tratamento com sua esposa. Para isso, decide levá-la até uma casa de campo na Floresta de Éden para que a mesma enfrente seus medos. Os problemas da mulher aumentam, entretanto, chegando à loucura, o que coloca em risco a sua vida e a de seu marido.

Charlotte Gainsbourg num papel cheio de perigo e insanidade

Anticristo é um misto de sensações. Não dá para sair indiferente a todas as cenas fortes e algumas até bizarras que se vê. Há quem ache o filme brilhante, na sua capacidade de retratar com profundidade a depressão, o sofrimento e a insanidade. Há outros, porém, que pensam que todas aquelas barbaridades as quais a plateia é submetida não se justificam. Enquadro-me mais no segundo grupo.

É inegável que o filme explora bem o silêncio, já que a trilha sonora aparece bem pouco, e contém uma belíssima fotografia, assinada por Anthony Dod Mantle (Quem quer ser um milionário, 2008). Incluem-se também os ótimos enquadramentos e, enfim, todo o virtuosismo cinematográfico de Lars Von Trier está presente nesta obra. Isso sem contar o ótimo desempenho do elenco, focado em apenas dois atores que contracenam na maior parte do tempo.

O marido psicólogo (Willem Dafoe) sofre nas mãos da mulher

A despeito de ser uma obra muita bem realizada, há muitos exageros e cenas apelativas que, a meu ver, não convencem tamanha a grosseira a qual invocam. A cena da perna, por exemplo, que facilmente será lembrada por quem a assistiu, puxa para um lado Jogos Mortais que é impossível ser levado a sério. O mesmo na cena em que a raposa fala com o protagonista. O que aquele animal significa? Dentro da lógica torpe do filme, até pode-se entender. Mas não, não é mesmo necessário.

É de se esperar que o público dê risada nestas cenas pretensamente sérias. Risadas do quê? Talvez de desconforto, de protesto. O filme tem méritos, é claro. Há sacadas inteligentes, que trazem à tona mais sensações do que pensamentos. O choro da criança, a raposa extirpando-se, o cervo parindo um feto. Enfim, uma coletânea de cenas medonhas estão a serviço desse tratamento todo especial a um tema delicado que aqui é tratado sem tabus.

O confronto entre a loucura e o suposto tratamento

Tudo no filme é um paradoxo proposital: as cenas explícitas de sexo intercalam-se com fortes momentos de violência, o tratamento psicológico pouco funcional (talvez pela própria descrença do diretor a esse tipo de terapia). A própria sequência de início apresenta essas antíteses: um momento de intimidade que está relacionado à geração de vida é a causa da negligência que resulta em morte. Tudo isso é apresentado sob um tom depressivo, intenso e bastante psicológico.

O título do filme, embora não explícito, é possível de se deduzir conforme o psicólogo vai tirando novas conclusões sobre o suposto tratamento. Mas não espere um tratado contra os cristãos. É mais fácil aproximá-lo do niilismo que o filósofo Nietzsche desenvolve nas suas obras. Uma delas, não por coincidência, se chama O Anticristo.

Cartaz do filme

Para concluir, por mais que essa esfera obscura seja explorada de um jeito diferente, muitas cenas parecem não ter a noção do ridículo, esbanjando uma repugnância barata. O instante em que o marido se esconde da mulher em uma toca, por exemplo, chega a estimular várias risadas. Como conciliá-las com o resto da fita? As intenções de Lars Von Trier com Anticristo são difíceis de serem entendidas. Até que ponto essa complexidade denota uma profundidade plausível ou um exagero da vontade de ser degenerado?

Direção: Lars Von Trier
País: Dinamarca/Alemanha/França/Suécia/Itália/Polônia
Ano: 2009

Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg
Produção: Meta Louise Foldager
Roteiro: Lars Von Trier
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Direção de Arte: Tim Pannen

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