Skip to content

Entre os Muros da Escola (Entre les Murs)

20 / julho / 2010

Marcado por um realismo muito bem executado, o filme retrata a realidade educacional francesa e sugere um panorama da sociedade francesa contemporânea. Ótima produção e muito rico em conteúdo.

Avaliação: muito bom

O longa-metragem Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, França, 2008), dirigido por Laurent Cantet, assemelha-se, em alguns pontos, com outro filme francês que retrata o cotidiano escolar, Nosso Professor é um Heroi (1996), mas o primeiro ganha por conter muito mais significados e realismo. O filme pode ser analisado por dois prismas principais: a questão da educação em si e o reflexo da mesma como um panorama da sociedade francesa contemporânea.

François Bégaudeau na sala de aula: cenário majoritário

Ficando, literalmente, entre os muros de uma escola pública da periferia parisiense, retrata-se um ano letivo de alunos da sétima série. Focando na aula do professor de língua francesa, François (François Bégaudeau), docente que já trabalha na escola há alguns anos, acompanhamos os conflitos que ocorrem entre alguns alunos e alunas – aquelas “figuras carimbadas” – e o professor, por praticamente qualquer coisa.

À primeira vista, diante de tantos atritos, atestamos os problemas na convivência em sala de aula e na relação professor-aluno, obstáculos que podem ser facilmente comparados com a realidade brasileira. A questão não é só uma dificuldade de se ensinar, mas principalmente no de construir um sentido para tudo aquilo: por que a escola? Esse questionamento tem se mostrado bastante presente no panorama educacional, configurando o que se conhece pela crise do ensino e suas derivações: má qualidade, “fracasso escolar”, gestão administrativa deficiente, pouco investimento etc.

A questão de como ensinar diante da diversidade de alunos e dos problemas da escola

No filme, logo após a reunião que abre o ano letivo, vemos um professor veterano com a lista de alunos indicando “esse é bonzinho, esse não é bonzinho, esse não é nem um pouco bonzinho”. A lista não surpreende pela quantidade de alunos classificados como “maus”, e sim pela construção a priori da imagem dos alunos, o que certamente influencia na maneira como o professor vai lidar com os mesmos.

Vemos, para citar algumas cenas, os estudantes questionando por que o professor François sempre utiliza nomes americanos, como Bob, para servir de exemplo em frases de língua francesa, em vez de nomes africanos ou asiáticos. Isso faz muito sentido no quadro francês, em que há uma miscigenação muito grande. Essa questão fica muito clara no filme e é justamente neste ponto em que ele extrapola os “muros da escola”.

Os professores reunidos: entre crises, preconceitos, desencantos e também vontade

Há outras partes interessantes: a aluna que não se interessa nem um pouco pela leitura do Diário de Anne Frank, adotado pelo professor, e diz ter lido, se interessado e entendido A República, de Platão. Assim como uma outra aluna, muito quieta, que passa invisível ao espectador o filme todo e diz não ter aprendido nada no final do ano letivo.

É possível ministrar um curso inteiro sobre educação apenas usando o conteúdo do filme. Por isso, para não me alongar muito nas questões levantadas, vou comentar alguns pontos da produção.

François na literatura, roteiro e interpretação: autor, coautor e ator de si mesmo

A grande marca do filme é o realismo, narrado em tom semidocumental. Primeiramente, não há trilha sonora e as imagens são captadas, em grande parte, por câmeras de mão, que tem o mérito dar a sensação de inclusão do espectador na cena.

O elenco é composto majoritariamente por atores não profissionais. Os alunos, por exemplo, são mesmo estudantes da sétima série. Assim como o protagonista, François Bégaudeau, que escreveu o livro que serviu de base, participou da elaboração do roteiro e atua no filme interpretando a si mesmo.

Cartaz original do filme

Outro ponto, este bastante interessante, é que foram permitidas muitas improvisações sobre o roteiro, de modo que a aula soasse o mais natural possível. Logo, nem tudo o que vemos foi ensaiado, sendo produto do próprio clima da aula que era recriada.

Logo, em termos de produção e conteúdo, esse filme acerta muito bem. Vale a pena conferir e refletir os problemas levantados em Entre os Muros da Escola.

Direção: Laurent Cantet
País: França
Ano: 2008

Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Bounaïdja Rachedi, Juliette Demaille, Dalla Doucoure
Produção: Caroline Benjo, Carole Scotta
Roteiro: Robin Campillo, Laurent Cantet, François Bégaudeau, baseado em livro homônimo de François Bégaudeau
Fotografia: Pierre Milon

Anúncios
6 Comentários
  1. Belissimo texto teu, realmente mostra o quão denso é este trabalho. Preciso conferir, este filme ficou um bom tempo aqui em algumas salas de arte da minha cidade (Salvador).

    Teu blog tem uma abordagem interessantissima, parabéns!

  2. Gostaria de entrar em contato contigo…qual teu msn? ou email?

    manda me um email, por favor:

    cristiano.contreiras@gmail.com

    Pena que não visite e conheça meu espaço…

    mas, te leio sempre aqui.

    até!

  3. rafaela permalink

    Olá!!

    Sou estudante de tradução – francês na Universidade de Brasília e tenho um enorme interesse em conseguir o ROTEIRO COMPLETO do filme “entre les murs” , pois meu projeto final de tradução vai ser baseado nele!

    Alguém sabe me responder onde posso encontrar?

    obrigado!

  4. Rafaela,

    Roteiros são difíceis de achar para baixar na Internet, mas não é impossível.

    Tenho alguns roteiros que comprei pela Amazon.com , logo, tive que importar. Há uma editora que publica vários roteiros de filmes. Procure por alguns títulos como “Juno”, “The Hurt Locker”, que você vai encontrar vários trabalhos dessa editora.

    Os roteiros custam por volta de US$ 10,00 a US$ 15,00. No Brasil, por exemplo na Livraria Cultura, os roteiros custam de R$ 30,00 a R$ 50,00, pelo que vi.

    Boa sorte!

  5. Luciana Rodrigues permalink

    Esse filme é muito interessante..
    mto legal mesmo!
    🙂

Trackbacks & Pingbacks

  1. Entre os Muros da Escola (Entre les Murs) | Cinema Carcará

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: