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Revolução em três dimensões?

21 / abril / 2010

Muito se fala, após o lançamento do longa-metragem de James Cameron, Avatar (2009), que este filme deve protagonizar uma revolução 3D, isto é, a fita, sendo pioneira em uma tecnologia inovadora, estaria mudando os rumos da produção de filmes. Neste artigo, pretendo discutir alguns pontos relacionados a essa questão.

Avatar estaria protagonizando uma revolução 3D?

Aspectos técnicos das três dimensões

A era dos óculos azuis e vermelhos já acabou. As animações que tem saído ultimamente utilizam muito bem a ferramenta 3D. Up – Altas Aventuras e Como Treinar o seu Dragão são dois exemplos. Alguns dos últimos filmes: Premonição 4, aproveitou a onda da tecnologia 3D para a franquia iniciada em 2000, e Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton.

De todas as últimas produções, o destaque está em Avatar e Alice. Por mais que se possa pensar que Alice aproveitou a tecnologia empregada em Avatar, na verdade não foi bem assim que aconteceu. Tim Burton não adotou a tecnologia que a equipe de James Cameron desenvolveu.

Tecnologia adotada em Avatar: o ator (à direita) atua no estúdio e seus movimentos e expressões são passados para um monitor

Para filmar Avatar, primeiramente o elenco atuou no que foi chamado de “Volume”, um espaço vazio em que os atores interpretam seus papeis vestindo uma roupa que cobre quase todo o corpo e é capaz de detectar seus movimentos, além de câmeras faciais para detectar expressões do rosto. O nome disto é performance capture, ou “captura de atuação”. Tudo o que é detectado é passado para um monitor que insere os atores dentro do cenário desenvolvido artificialmente pela produção do filme.

James Cameron com uma das suas inovadoras câmeras

Outro aspecto importante foi o desenvolvimento de câmeras 3D pequenas, leves e que rodam simultaneamente em 2D e 3D, ao contrário das antigas câmeras 3D, grandes e estáticas demais. Por final, a produtora Weta Digital, a mesma utilizada em O Senhor dos Anéis, possui os softwares mais avançados do mundo para a “leitura” da performance capture.

E Alice no País das Maravilhas? Simples, o filme foi todo filmado no 2D convencional e depois convertido a 3D. Resultados à parte, temos dois pólos bastante distintos no uso dessa tecnologia. Avatar, sem dúvida, é a que foi mais longe. Mas será totalmente difundida?

O conteúdo pela forma

Orgulhoso, James Cameron diz “O filme surgiu da minha necessidade de dizer algo sobre como a destruição da natureza ameaça o mundo”, em recente entrevista concedida à Veja, completa: Avatar é a minha maneira, como artista e cineasta, de tocar o sino de alerta. Uma das imagens recorrentes em Avatar é a dos personagens abrindo os olhos. Há sempre alguém acordando no filme. A mensagem subliminar é que a sociedade precisa acordar para os problemas ambientais e lidar com eles.”

Bastardos Inglórios: o forte é o roteiro

Digam o que quiserem os defensores de Avatar. A mensagem ecológica do filme é puro clichê. Essa ideia de que o filme está cumprindo um papel social é lorota para dar um ar de engajamento ao que poderia ser reduzido, com motivo, a um doce para os olhos. A tecnologia 3D intensifica esse doce. Torna o filme mais belo, promove uma maior imersão do espectador, mas não o faz menos fantasioso ou menos superficial.

O aspecto da fantasia será discutido no próximo tópico. Sobre superficialidade, devemos lembrar que o segredo para um filme profundo, interessante, inovador ou mesmo engajado, se é o que se pretende, está num único ponto: o roteiro. É no roteiro que está a alma de um filme, como é o caso do espetacular Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino. E é justamente neste ponto em que se baseiam as críticas a Avatar.

Jason Reitman, de Amor sem Escalas: 'Quem quer ver uma lágrima em 3D?'

O cinema 3D não será responsável por um aumento da qualidade dos filmes, a menos que se reduza a qualidade a aspectos visuais e olhe lá. Jason Reitman, o diretor de Juno e Amor sem Escalas, disse ao blog SOS Hollywood: “Quem quer ver uma lágrima em 3D?”, ou seja, para alguns gêneros, não há nada em que a tecnologia 3D possa acrescentar de relevante. Já nos filmes de ação e de ficção, inova-se na tecnologia para repetir um infeliz paradigma: efeitos especiais brilhantes a serviço do vazio.

Enquanto se continuar trocando o conteúdo pela forma, o cinema 3D vai gerar mais lucros, já que o preço do ingresso é significantemente mais caro, e atrair mais espectadores para o que a indústria cinematográfica gosta de frisar como uma revolução em três dimensões. Pelo retorno, nunca se viu uma revolução tão lucrativa.

Visão tridimensional e o realismo

Nós ouvimos, somos capazes de enxergar cor e temos visão tridimensional. Logo, a tecnologia 3D parece algo perfeitamente real, descontada a necessidade de óculos especiais. Até que ponto o cinema 3D, na onda dos grandiosos efeitos especiais, trará mais realismo? Só por reproduzir uma qualidade natural dos seres humanos?

Até agora, essa tecnologia só forneceu mais subsídios para a fantasia. Aqui, vale a pena citar o resultado mais injusto do último Oscar: Avatar venceu o alemão A Fita Branca na categoria de Melhor Fotografia. O interessante foi ver dois filmes completamente diferentes disputando lado a lado.

E onde entra a qualidade de A Fita Branca?

A Fita Branca, embora tenha uma alta qualidade da imagem, é um filme que se aproxima do que era produzido há décadas: a fita foi toda rodada em branco-e-preto e não há trilha sonora, isto é, todos os sons provêm dos próprios elementos em cena. A despeito disso, o longa de Michael Haneke dá um show de conteúdo e de forma, pois a fotografia é belíssima. Em vez de investir em lágrimas em 3D, o filme deu outras dimensões a essas mesmas lágrimas.

Entretanto, essa ótima produção acabou perdendo para o mundo artificialmente criado de Avatar. Não há receios em chamá-lo de artificial. Cameron explica: “Em Avatar, criamos do zero uma floresta tropical extraterrestre com todos os detalhes: as gotas de água sobre as folhas, as plantas e até os insetos. Tudo o que se vê ali jamais existiu fisicamente.”

O mundo artificial de James Cameron

É, sem dúvida, um trabalho belíssimo e brilhante, mas que está longe do conceito de fotografia. Foi para esse arsenal tecnológico que A Fita Branca perdeu. A questão é: isso não é uma evidência de que o cinema 3D está tomando o lugar do conteúdo por uma forma que se deleita dentro de uma realidade virtual? A que realismo é esse que a tecnologia 3D serve? Ao realismo da fantasia? Pois é, A Fita Branca pagou o preço da “revolução”.

Conclusão

Lucro por lucro, Avatar deve se desdobrar em mais duas continuações, segundo seu diretor. O filme perdeu para Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, o Oscar de Melhor Filme. Em certo ponto, essa tecnologia foi deixada de lado. Mas ainda hoje, e provavelmente por um bom tempo, sobre qual desses dois filmes deve-se falar mais? Há dúvidas?

Cameron e o protagonista Sam Worthington em gravação

O maior prêmio que Avatar almejava, ele já conquistou: tornou-se a maior bilheteria mundial, superando US$ 2,5 bilhões. Não sem esforços: o filme investiu em torno de US$ 310 milhões na produção e, somando os valores superlativos de publicidade, totalizou um orçamento na casa dos US$ 500 milhões.

E a tal revolução 3D? Aproveitando a onda, é bem provável que os filmes que necessitam de efeitos visuais adotem as tecnologias empregadas em Avatar ou similares. Porém, se isto for apenas para dar mais ênfase ao que se conhece por cinema hollywoodiano com todos os seus enlatados comerciais, haverá uma orla de ótimos diretores que devem passar indiferentes a essa tecnologia.

Se a principal justificativa para toda a sofisticação tecnológica de Avatar é simplesmente promover maior realismo na experiência de ir ao cinema, então nunca custou tão caro ser real.

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