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Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness)

16 / maio / 2010

Adaptação bastante fiel da obra-prima de José Saramago, o filme faz um bom trabalho, com uma ótima fotografia e edição, mas não chega a empolgar.

Avaliação: bom

A estreia muito aguardada da adaptação do best-seller do autor português José Saramago dividiu a crítica. Dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, dentre os comentários sobre Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, Brasil/Japão/Canadá, 2008) também estavam inclusos os clichês de que “o livro é sempre melhor”. Sobre alguns aspectos desta obra, a frase até vale, mas é inegável que a adaptação para o cinema tem seus méritos.

A história mostra uma epidemia inexplicável de cegueira atingindo, a princípio, a população de uma grande metrópole a partir de um homem oriental (Yusuke Iseya), e estimulando que o governo isole o grupo inicial dessas vítimas num hospício abandonado, mantendo-os em quarentena. Dentre eles, está o médico (Mark Ruffallo) que teve contato com o primeiro cego, uma prostituta (Alice Braga), um ladrão de carros (Don McKellar, também autor do roteiro) e outros personagens.

A mulher do médico (Julianne Moore): a nossa imersão no filme

Curiosamente, a mulher do médico (Julianne Moore) é a única que não perde a visão e, justamente por isso, acaba servindo como um guia para os outros cegos, sendo a protagonista da história. Isolados, os cegos passam a comportar segundo seus instintos primários, gerando o caos, a desordem e a degradação. Para piorar, um deles (Gael García Bernal) banca o líder, fazendo com que a situação fique ainda pior.

Muitas vezes Saramago recusou que sua obra-prima fosse adaptada para o cinema, talvez porque quisesse evitar o sensacionalismo que rodeia este tipo de filme, tendendo a tons apocalípticos. No caso de Meirelles, ele aceitou. Fez um bom negócio: Meirelles dirigiu uma adaptação bastante fiel à obra original, o que resultou num bom trabalho, porém, comportado demais.

O líder da 3ª ala (Gael García Bernal): o antagonista da história

O elenco foi bem escalado, mas sua atuação foi apenas correta, não surpreende. O filme atropela um pouco o ritmo no primeiro ato, o que pode confundir quem não leu a obra original. Embora a história seja de natureza bastante envolvente, essa adaptação cumpre, mas não chega a empolgar.

Com exceção de algumas cenas muito boas: o estupro coletivo, seguido da morte de uma mulher, é certamente o ponto alto do filme; outra de destaque é o conflito que a personagem de Julianne Moore tem com outros cegos ao descobrir um porão cheio de comida em um supermercado. Dá vontade de pular na cena e ajudá-la.

Grupo de cegos caminhando pela cidade devastada

A obra de Saramago possui uma literatura muito forte, contundente. O filme é menos pesado, no sentido de deixar menos explícita toda a violência do livro. Mas, é claro, algumas coisas não precisam ser totalmente mostradas, além do mais, o impacto visual que elas teriam poderia roubar todo o sentido da cena, o que pode ter acontecido com Anticristo (2009), de Lars Von Trier.

Vale pontos a belíssima fotografia de César Charlone a qual, aliada à edição de Daniel Rezende, faz um trabalho excepcional. Os tons brancos, leitosos, desfocados, remetem ao estado das vítimas da cegueira que, diferentemente da cegueira tradicional em que se enxerga preto, vê-se tudo branco. A fita consegue até nos cegar com tanto branco que é lançado. A trilha sonora, assinada por Marco Antônio Guimarães, é adequada no sentido de ser minimalista e dar um tom de insanidade, mas não é muito agradável de ser ouvida.

Cartaz do filme

Já presente no livro, a não identificação de tempo, espaço e sequer dos personagens, é mantida, dando uma ideia universal e atemporal ao sentido que a obra quer transmitir: a metáfora da cegueira da humanidade diante dos seus problemas. Na cegueira, todo mundo é igual, todos são selvagens (há quem criticou o filme por fazer apologia contra os cegos, o que é no mínimo uma ignorância). É uma crônica que dá subsídios para se refletir. A violência, decorrência natural do estado em que os personagens são submetidos, dá uma chacoalhada na plateia e chama a atenção para tudo isso.

Pode não ser uma obra de destaque na cinematografia de Meirelles (não tente compará-la com Cidade de Deus), mas não deixa de ser instigante. Seja em papel, seja nas telonas, uma obra de Saramago é sempre matéria para discussões.

Direção: Fernando Meirelles
País: Brasil/Japão/Canadá
Ano: 2008

Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover, Gael García Bernal, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Mitchell Nye, Don McKellar, Sandra Oh
Produção: Andrea Barata Ribeiro, Niv Fichman, Sonoko Sakai
Roteiro: Don McKellar, baseado na obra de José Saramago
Fotografia: César Charlone
Trilha Sonora: Marco Antônio Guimarães

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6 Comentários
  1. Adiano,

    Não gostei e não foi por causa do livro, pois eu nem cheguei a ler essa obra. Esse seu comentário no artigo me fez lembrar de um post seu no Letras Despidas, sobre o equívoco de ficar comparando filmes com livros.

    No mais, foi justamente a parte que você diz ser o ponto alto foi a parte que eu não gostei.

    No caso da mulher do medico (Julianne Moore) conseguiria facilmente sobrepujar um exercito de pessoas cegas, pedindo para os outros fazerem barulhos, confundindo eles de alguma forma ou através de um ataque quase frontal, salvando todas elas de um estupro coletivo.

    De certa forma, a história apesar de ter seus momentos envolventes em outros aspectos dúvida da inteligência do espectador.

    Enfim faz um tempinho que eu assisti, não lembro direito e nem sei se é bem isso que eu estou falando.

    Abraços!!!

    • Oi Inã,

      Você não é a primeira pessoa que me diz isso. Realmente, é possível pensar que a mulher do médico (Julianne Moore) poderia ter tomado uma atitude mais agressiva. Ela foi conivente demais, inclusive permitindo-se ser abusada pelo líder da 3ª ala (Gael García Bernal).

      Mas para fins de causar impacto, Saramago meio que deu uma forçadinha. Talvez no livro essa passagem tenha sido mais bem justificado do que foi no filme, que evidentemente fez cortes na história.

      De qualquer forma, acho a ideia do filme tão interessante que não ligo muito para esses “erros”.

      Abraços

  2. É triste a perda do mestre Saramago!

    Acabei me lembrando que você gostava muito desse grande escritor e vivia criando posts sobre o mesmo.

    Um grande abraço!

  3. Soraya permalink

    Não acredito que isso seja um erro. Diante de um ambiente hostil, as pessoas tendem a ficar mais instáveis. Faz tempo que li e assisti as obras, mas há de se levar em consideração que há uma pressão enorme em ser a ÚNICA capaz de ver dentre dezenas de pessoas que passam a agir instintivamente. Imagine se o seu sugerido ataque torna-se mal-sucedido. O estardalhaço – grosseiramente falando – somente serviria para aumentar o ego deles. Além de que, se ela o tivesse feito, muitos criticariam por ser algo “previsível”. É muito mais complexo que apenas um erro. É uma questão de personalidade. Há pessoas que de início já tentariam tirar vantagem (vide líder da 3ª ala) e outras inicialmente submissas, mas que posteriormente, quando a desordem beirasse o caos, despertariam seus instintos animais.

  4. A mesma de anteriormente permalink

    PS: Esqueci de colocar o texto como resposta ao primeiro comentário do Inã Candido.
    PPS: Nem sei se faz algum sentido o que escrevi, acho que meu sono está me consumindo. Na verdade, acho que o subestimei. Doravante comentarei em sã consciência. Talvez.

  5. May permalink

    Esse filme simplesmente é péssimo. Sem essa desculpa “intelectual”. O livro pode ser melhor, mas para mim, como qualquer pessoa que gosta de filmes tradicionais e bem explicados, esse foi horrível e forçado.

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