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Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness)

Adaptação bastante fiel da obra-prima de José Saramago, o filme faz um bom trabalho, com uma ótima fotografia e edição, mas não chega a empolgar.

Avaliação: bom

A estreia muito aguardada da adaptação do best-seller do autor português José Saramago dividiu a crítica. Dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, dentre os comentários sobre Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, Brasil/Japão/Canadá, 2008) também estavam inclusos os clichês de que “o livro é sempre melhor”. Sobre alguns aspectos desta obra, a frase até vale, mas é inegável que a adaptação para o cinema tem seus méritos.

A história mostra uma epidemia inexplicável de cegueira atingindo, a princípio, a população de uma grande metrópole a partir de um homem oriental (Yusuke Iseya), e estimulando que o governo isole o grupo inicial dessas vítimas num hospício abandonado, mantendo-os em quarentena. Dentre eles, está o médico (Mark Ruffallo) que teve contato com o primeiro cego, uma prostituta (Alice Braga), um ladrão de carros (Don McKellar, também autor do roteiro) e outros personagens.

A mulher do médico (Julianne Moore): a nossa imersão no filme

Curiosamente, a mulher do médico (Julianne Moore) é a única que não perde a visão e, justamente por isso, acaba servindo como um guia para os outros cegos, sendo a protagonista da história. Isolados, os cegos passam a comportar segundo seus instintos primários, gerando o caos, a desordem e a degradação. Para piorar, um deles (Gael García Bernal) banca o líder, fazendo com que a situação fique ainda pior.

Muitas vezes Saramago recusou que sua obra-prima fosse adaptada para o cinema, talvez porque quisesse evitar o sensacionalismo que rodeia este tipo de filme, tendendo a tons apocalípticos. No caso de Meirelles, ele aceitou. Fez um bom negócio: Meirelles dirigiu uma adaptação bastante fiel à obra original, o que resultou num bom trabalho, porém, comportado demais.

O líder da 3ª ala (Gael García Bernal): o antagonista da história

O elenco foi bem escalado, mas sua atuação foi apenas correta, não surpreende. O filme atropela um pouco o ritmo no primeiro ato, o que pode confundir quem não leu a obra original. Embora a história seja de natureza bastante envolvente, essa adaptação cumpre, mas não chega a empolgar.

Com exceção de algumas cenas muito boas: o estupro coletivo, seguido da morte de uma mulher, é certamente o ponto alto do filme; outra de destaque é o conflito que a personagem de Julianne Moore tem com outros cegos ao descobrir um porão cheio de comida em um supermercado. Dá vontade de pular na cena e ajudá-la.

Grupo de cegos caminhando pela cidade devastada

A obra de Saramago possui uma literatura muito forte, contundente. O filme é menos pesado, no sentido de deixar menos explícita toda a violência do livro. Mas, é claro, algumas coisas não precisam ser totalmente mostradas, além do mais, o impacto visual que elas teriam poderia roubar todo o sentido da cena, o que pode ter acontecido com Anticristo (2009), de Lars Von Trier.

Vale pontos a belíssima fotografia de César Charlone a qual, aliada à edição de Daniel Rezende, faz um trabalho excepcional. Os tons brancos, leitosos, desfocados, remetem ao estado das vítimas da cegueira que, diferentemente da cegueira tradicional em que se enxerga preto, vê-se tudo branco. A fita consegue até nos cegar com tanto branco que é lançado. A trilha sonora, assinada por Marco Antônio Guimarães, é adequada no sentido de ser minimalista e dar um tom de insanidade, mas não é muito agradável de ser ouvida.

Cartaz do filme

Já presente no livro, a não identificação de tempo, espaço e sequer dos personagens, é mantida, dando uma ideia universal e atemporal ao sentido que a obra quer transmitir: a metáfora da cegueira da humanidade diante dos seus problemas. Na cegueira, todo mundo é igual, todos são selvagens (há quem criticou o filme por fazer apologia contra os cegos, o que é no mínimo uma ignorância). É uma crônica que dá subsídios para se refletir. A violência, decorrência natural do estado em que os personagens são submetidos, dá uma chacoalhada na plateia e chama a atenção para tudo isso.

Pode não ser uma obra de destaque na cinematografia de Meirelles (não tente compará-la com Cidade de Deus), mas não deixa de ser instigante. Seja em papel, seja nas telonas, uma obra de Saramago é sempre matéria para discussões.

Direção: Fernando Meirelles
País: Brasil/Japão/Canadá
Ano: 2008

Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover, Gael García Bernal, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Mitchell Nye, Don McKellar, Sandra Oh
Produção: Andrea Barata Ribeiro, Niv Fichman, Sonoko Sakai
Roteiro: Don McKellar, baseado na obra de José Saramago
Fotografia: César Charlone
Trilha Sonora: Marco Antônio Guimarães

Medos Privados em Lúgares Públicos (Coeurs)

Utilizando diversos artifícios para retratar a solidão e o isolamento, o filme conta as relações efêmeras de seis personagens. Todavia, não justifica os inúmeros elogios que recebeu.

Avaliação: bom

O longa-metragem Medos Privados em Lugares Públicos (Coeurs, França/Itália, 2006) do experiente diretor francês Alain Resnais recebeu inúmeros elogios, estando em cartaz no cinema Belas Artes, de São Paulo, há quase três anos. Exageros à parte, o filme é bom, mas talvez tenha sido excessivamente exaltado por toda a áurea existente sobre o diretor de quase noventa anos de vida.

Thierry (Andre Dussolier) e Nicole (Laura Morante)

A trama é a seguinte: passando-se em Paris, Thierry (Andre Dussolier) é um corretor de imóveis solteiro que procura um apartamento para o casal em crise Nicole (Laura Morante) e Daniel (Lambert Wilson). Daniel está desempregado e refugia-se nas bebidas, passando grande parte do dia contando seus problemas para o barman Lionel (Pierre Arditi). Este último contrata a cristã Charlotte (Sabine Azéma), colega de trabalho de Thierry, para cuidar de seu pai doente, mas não sabe que ela esconde fantasias eróticas. Thierry também é irmão da solitária Gaëlle (Isabelle Carre), caçula que inicia um romance com Daniel, numa de suas idas ao bar.

A história, que dá um nó nos personagens em termos de relacionamento, não é tão interessante, mas isso não parece ser uma preocupação para Resnais. O objetivo da fita não é focar na trama de apenas um personagem ou de uma situação, e sim retratar um conjunto de relacionamentos fracos, contrastantes com a atmosfera de amor parisiense, para a qual há alguns anos foi dedicado o filme Paris, Te Amo (2006).

Charlotte (Sabine Azéma) e Lionel (Pierre Arditi)

Para tanto, a produção, adaptando uma peça teatral de Alan Ayckbourn, manteve o caráter teatral dentro do cinema e utilizou técnicas cinematográficas com símbolos nítidos. A fim de realçar a solidão, muitas vezes a câmera capturou as imagens por cima, tirando a intimidade da cena e dando uma ideia maior de isolamento.

Essa ideia é reforçada por muitos outros artifícios, todos bem pensados: dois ou três atores contracenam de cada vez, nunca os seis aparecem juntos; as cores frias; a trilha sonora não apela para a sentimentalidade; entre os cortes de cena, em diversos momentos cai neve dentro de lugares fechados, o que passa uma ideia de frieza, de distanciamento; em diversas cenas há neve sobre o ombro dos personagens também em lugares fechados.

Gaëlle (Isabelle Carré) e Daniel (Lambert Wilson)

O roteiro, cumprindo também sua função, dá conta de apresentar relacionamentos efêmeros. Acreditando que podia haver um pouco mais de calor no coração, os personagens vão interagindo, mas esses fracos laços também se dissolvem. É óbvio que o filme não tem um desfecho que soluciona todos os problemas, o que seria demasiadamente piegas. É, do início ao fim, um filme triste.

Logo, a questão do baixo envolvimento que o filme provoca no espectador também pode ser entendida como resultado dessas relações distantes e solitárias. Por mais instigante que, pelas suas qualidades, esse filme racionalmente seja, a verdade é que saímos da seção com certa indiferença. Os méritos de Medos Privados em Lugares Públicos são mantidos, mas não justifica toda a poeira que levantou.

Direção: Alain Resnais
País: França/Itália
Ano: 2006

Elenco: Sabine Azéma, Lambert Wilson, André Dussollier, Pierre Arditi, Laura Morante, Isabelle Carré, Claude Rich, Françoise Gillard, Anne Kessler, Roger Mollien, Florence Muller, Michel Vuillermoz
Produção: Bruno Pésery
Roteiro: Jean-Michel Ribes, baseado na peça de Alan Ayckbourn
Fotografia: Eric Gautier
Trilha Sonora: Mark Snow

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland)

Adaptação de dois clássicos de Lewis Carroll, o filme constrói um mundo visualmente bonito e bastante colorido. Entretanto, a história fraca e maniqueísta, que culmina num final piegas, destrói o que havia de melhor no original: a anarquia e a ambiguidade.

Avaliação: razoável

A estréia de Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA, 2010) nos cinemas nacionais era muito aguardada, porque adaptara duas obras clássicas de Lewis Carroll, uma homônima ao filme e a outra Alice Através do Espelho, para o cinema fantasioso e criativo do diretor Tim Burton. O resultado, infelizmente, é abaixo do esperado.

Para este longa-metragem, foi criada uma terceira história, que mescla elementos das duas originais, mas baseia-se numa trama e num ponto de partida diferentes. No filme, Alice (Mia Wasikowska) tem 19 anos e se vê diante de uma decisão difícil: surpresa, deve escolher se aceita ou não se casar com um aristocrata com o qual pouco simpatiza. Para fugir da ocasião, segue um coelho branco apressado até cair numa toca e chegar ao que os personagens chamam de Mundo Subterrâneo (do original, Underland, trocadilho com Wonderland).

Alice (Mia Wasikowska) no Mundo Subterrâneo

Lá, ela reencontrará os personagens que viu há 10 anos, quando visitou o Mundo Subterrâneo pela primeira vez (ilustrado no clássico de Carroll). Dentre os personagens, o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) orientará Alice para que, com apoio da Rainha Branca (Anne Hathaway), seja derrotado o maléfico reinado da autoritária Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter).

Quando me perguntam o que achei do filme, respondo que achei colorido. A primeira impressão de toda a construção fantástica do mundo paralelo em que Alice se encontra é esta. Sem dúvida, Tim Burton é muito hábil para criar coisas bem diferentes e, por vezes, bizarras, vide o drama Edward Mãos-de-Tesoura (1990), a animação O Estranho Mundo de Jack (1993) e o musical Sweeney Todd (2007).

O Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) e a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter)

Sua inovação, criatividade e detalhismo pareciam casar perfeitamente com o mundo louco de Lewis Carroll. É o que mostra a arte do filme, impecável. Entretanto, a má habilidade que Burton tem para desenvolver histórias não conseguiu reproduzir a anarquia nonsense de Carroll, assim, Alice caiu num modelo padrão de filmes de aventura que transformou toda a ambiguidade das personagens originais em um maniqueísmo do tipo As Crônicas de Nárnia (2005).

Em termos de história, o resultado é frustrante. Não porque Burton, sobre o roteiro de Linda Woolverton (a mesma de A Bela e a Fera e O Rei Leão), construiu uma “terceira” aventura de Alice, misturando elementos das obras originais, e sim porque polarizou o enredo em uma divisão piegas de bem e mal, assassinando o que os livros tinham de melhor: os personagens não são amigáveis, tampouco confiáveis. Aqui, Alice vem para salvar o Mundo Subterrâneo.

O Gato Risonho: um dos destaques da fita

A aventura segue arrastada. Toda aquela magia visual pouco adianta. Pode até deslumbrar de início, mas cansa. O destaque está na Rainha Vermelha, interpretada pela ótima Helena Bonham Carter, esposa do diretor, e no Gato Risonho, muito bem construído. Entretanto, a protagonista Mia Wasikowska criou uma Alice insossa, inexpressiva. Nem Johnny Depp se salva; embora bom intérprete, seu personagem está vazio. Sobre Anne Hathaway, é melhor nem comentar.

Não se empolga, não se envolve, não se surpreende. Alice no País das Maravilhas caiu no rol das produções bonitas e sem graça. Para completar, o final é terrivelmente ruim, parecendo um filme de superação. Definitivamente isso não é Lewis Carroll. Muito menos Tim Burton.

Direção:
Tim Burton
País: EUA
Ano: 2010

Elenco:
Mia Wasikowska, Johnny Depp, Michael Sheen, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Matt Lucas, Alan Rickman, Christopher Lee, Crispin Glover, Stephen Fry
Produção: Richard Zanuck, Joe Roth, Jennifer e Suzanne Todd
Roteiro: Linda Woolverton
Fotografia: Dariusz Wolski

Revolução em três dimensões?

Muito se fala, após o lançamento do longa-metragem de James Cameron, Avatar (2009), que este filme deve protagonizar uma revolução 3D, isto é, a fita, sendo pioneira em uma tecnologia inovadora, estaria mudando os rumos da produção de filmes. Neste artigo, pretendo discutir alguns pontos relacionados a essa questão.

Avatar estaria protagonizando uma revolução 3D?

Aspectos técnicos das três dimensões

A era dos óculos azuis e vermelhos já acabou. As animações que tem saído ultimamente utilizam muito bem a ferramenta 3D. Up – Altas Aventuras e Como Treinar o seu Dragão são dois exemplos. Alguns dos últimos filmes: Premonição 4, aproveitou a onda da tecnologia 3D para a franquia iniciada em 2000, e Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton.

De todas as últimas produções, o destaque está em Avatar e Alice. Por mais que se possa pensar que Alice aproveitou a tecnologia empregada em Avatar, na verdade não foi bem assim que aconteceu. Tim Burton não adotou a tecnologia que a equipe de James Cameron desenvolveu.

Tecnologia adotada em Avatar: o ator (à direita) atua no estúdio e seus movimentos e expressões são passados para um monitor

Para filmar Avatar, primeiramente o elenco atuou no que foi chamado de “Volume”, um espaço vazio em que os atores interpretam seus papeis vestindo uma roupa que cobre quase todo o corpo e é capaz de detectar seus movimentos, além de câmeras faciais para detectar expressões do rosto. O nome disto é performance capture, ou “captura de atuação”. Tudo o que é detectado é passado para um monitor que insere os atores dentro do cenário desenvolvido artificialmente pela produção do filme.

James Cameron com uma das suas inovadoras câmeras

Outro aspecto importante foi o desenvolvimento de câmeras 3D pequenas, leves e que rodam simultaneamente em 2D e 3D, ao contrário das antigas câmeras 3D, grandes e estáticas demais. Por final, a produtora Weta Digital, a mesma utilizada em O Senhor dos Anéis, possui os softwares mais avançados do mundo para a “leitura” da performance capture.

E Alice no País das Maravilhas? Simples, o filme foi todo filmado no 2D convencional e depois convertido a 3D. Resultados à parte, temos dois pólos bastante distintos no uso dessa tecnologia. Avatar, sem dúvida, é a que foi mais longe. Mas será totalmente difundida?

O conteúdo pela forma

Orgulhoso, James Cameron diz “O filme surgiu da minha necessidade de dizer algo sobre como a destruição da natureza ameaça o mundo”, em recente entrevista concedida à Veja, completa: Avatar é a minha maneira, como artista e cineasta, de tocar o sino de alerta. Uma das imagens recorrentes em Avatar é a dos personagens abrindo os olhos. Há sempre alguém acordando no filme. A mensagem subliminar é que a sociedade precisa acordar para os problemas ambientais e lidar com eles.”

Bastardos Inglórios: o forte é o roteiro

Digam o que quiserem os defensores de Avatar. A mensagem ecológica do filme é puro clichê. Essa ideia de que o filme está cumprindo um papel social é lorota para dar um ar de engajamento ao que poderia ser reduzido, com motivo, a um doce para os olhos. A tecnologia 3D intensifica esse doce. Torna o filme mais belo, promove uma maior imersão do espectador, mas não o faz menos fantasioso ou menos superficial.

O aspecto da fantasia será discutido no próximo tópico. Sobre superficialidade, devemos lembrar que o segredo para um filme profundo, interessante, inovador ou mesmo engajado, se é o que se pretende, está num único ponto: o roteiro. É no roteiro que está a alma de um filme, como é o caso do espetacular Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino. E é justamente neste ponto em que se baseiam as críticas a Avatar.

Jason Reitman, de Amor sem Escalas: 'Quem quer ver uma lágrima em 3D?'

O cinema 3D não será responsável por um aumento da qualidade dos filmes, a menos que se reduza a qualidade a aspectos visuais e olhe lá. Jason Reitman, o diretor de Juno e Amor sem Escalas, disse ao blog SOS Hollywood: “Quem quer ver uma lágrima em 3D?”, ou seja, para alguns gêneros, não há nada em que a tecnologia 3D possa acrescentar de relevante. Já nos filmes de ação e de ficção, inova-se na tecnologia para repetir um infeliz paradigma: efeitos especiais brilhantes a serviço do vazio.

Enquanto se continuar trocando o conteúdo pela forma, o cinema 3D vai gerar mais lucros, já que o preço do ingresso é significantemente mais caro, e atrair mais espectadores para o que a indústria cinematográfica gosta de frisar como uma revolução em três dimensões. Pelo retorno, nunca se viu uma revolução tão lucrativa.

Visão tridimensional e o realismo

Nós ouvimos, somos capazes de enxergar cor e temos visão tridimensional. Logo, a tecnologia 3D parece algo perfeitamente real, descontada a necessidade de óculos especiais. Até que ponto o cinema 3D, na onda dos grandiosos efeitos especiais, trará mais realismo? Só por reproduzir uma qualidade natural dos seres humanos?

Até agora, essa tecnologia só forneceu mais subsídios para a fantasia. Aqui, vale a pena citar o resultado mais injusto do último Oscar: Avatar venceu o alemão A Fita Branca na categoria de Melhor Fotografia. O interessante foi ver dois filmes completamente diferentes disputando lado a lado.

E onde entra a qualidade de A Fita Branca?

A Fita Branca, embora tenha uma alta qualidade da imagem, é um filme que se aproxima do que era produzido há décadas: a fita foi toda rodada em branco-e-preto e não há trilha sonora, isto é, todos os sons provêm dos próprios elementos em cena. A despeito disso, o longa de Michael Haneke dá um show de conteúdo e de forma, pois a fotografia é belíssima. Em vez de investir em lágrimas em 3D, o filme deu outras dimensões a essas mesmas lágrimas.

Entretanto, essa ótima produção acabou perdendo para o mundo artificialmente criado de Avatar. Não há receios em chamá-lo de artificial. Cameron explica: “Em Avatar, criamos do zero uma floresta tropical extraterrestre com todos os detalhes: as gotas de água sobre as folhas, as plantas e até os insetos. Tudo o que se vê ali jamais existiu fisicamente.”

O mundo artificial de James Cameron

É, sem dúvida, um trabalho belíssimo e brilhante, mas que está longe do conceito de fotografia. Foi para esse arsenal tecnológico que A Fita Branca perdeu. A questão é: isso não é uma evidência de que o cinema 3D está tomando o lugar do conteúdo por uma forma que se deleita dentro de uma realidade virtual? A que realismo é esse que a tecnologia 3D serve? Ao realismo da fantasia? Pois é, A Fita Branca pagou o preço da “revolução”.

Conclusão

Lucro por lucro, Avatar deve se desdobrar em mais duas continuações, segundo seu diretor. O filme perdeu para Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, o Oscar de Melhor Filme. Em certo ponto, essa tecnologia foi deixada de lado. Mas ainda hoje, e provavelmente por um bom tempo, sobre qual desses dois filmes deve-se falar mais? Há dúvidas?

Cameron e o protagonista Sam Worthington em gravação

O maior prêmio que Avatar almejava, ele já conquistou: tornou-se a maior bilheteria mundial, superando US$ 2,5 bilhões. Não sem esforços: o filme investiu em torno de US$ 310 milhões na produção e, somando os valores superlativos de publicidade, totalizou um orçamento na casa dos US$ 500 milhões.

E a tal revolução 3D? Aproveitando a onda, é bem provável que os filmes que necessitam de efeitos visuais adotem as tecnologias empregadas em Avatar ou similares. Porém, se isto for apenas para dar mais ênfase ao que se conhece por cinema hollywoodiano com todos os seus enlatados comerciais, haverá uma orla de ótimos diretores que devem passar indiferentes a essa tecnologia.

Se a principal justificativa para toda a sofisticação tecnológica de Avatar é simplesmente promover maior realismo na experiência de ir ao cinema, então nunca custou tão caro ser real.

A Mente Que Mente (The Great Buck Howard)

Da mesma forma que entretém em certa dose, peca pela falta de originalidade. O ponto forte é a atuação de John Malkovich, mas o conjunto do filme não é lá aquelas coisas.

Avaliação: mais ou menos

O novo longa-metragem de Sean McGinly, traduzido para o Brasil como A Mente Que Mente (The Great Buck Howard, EUA, 2008) é uma daquelas comédias dramáticas que são muito didáticas ao passar uma mensagem para a plateia. O roteiro é mais do que batido, mas dá para se divertir ou pelo menos relaxar um pouco.

Colin Hanks, Emily Blunt e John Malkovich: o núcleo central do filme

Na fita, Troy (Colin Hanks) é um jovem cansado da faculdade de Direito, que optou por influência do pai (Tom Hanks, seu pai na vida real). Buscando emprego, conhece Buck Howard (John Malkovich), um mágico que na década de 70 era muito famoso, mas sobrevivia de pequenos shows em cidades do interior dos Estados Unidos. Contrariando seu pai, Troy aceitar trabalhar como gerente de produção do mágico.

Para um papel excêntrico como o de Buck Howard, John Malkovich se enquadra muito bem e faz uma boa interpretação, que é justamente o núcleo de comédia de A Mente Que Mente. É claro que chega uma hora que cansa um pouco tamanho a repetição das piadas, mas, vá lá, não ultrapassa a barreira do suportável. Com um aperto de mão exagerado, um grande sorriso no rosto e chavões como “Eu amo essa cidade!” em todo lugar que vai, Buck é uma figura que, além de cômica, é bastante enigmática.

O Grande Buck Howard em um dos seus números

Outro papel relevante é do morno Colin Hanks. Criticado por ser pai por deixar suas aspirações de lado em troca de um emprego em que, basicamente, fica cuidado para que o mágico tenha água e conhaque no camarim, Troy sente essa pressão ao mesmo tempo em que aprende sobre experiência de vida. Ganha novas ideias quando se relaciona com a personagem de Emily Blunt, outra jovem que trabalha para Buck mas, ao contrário de Troy, colhe apenas antipatia daquele e é bastante crítica quanto ao seu trabalho.

Enfim, não vale a pena me aprofundar mais na questão dramática, porque senão o filme seria todo revelado. De uma forma geral, produções sobre lições de vida são muito recorrentes no gênero de comédia dramática norte-americana. Podemos citar: Coração Louco (2009), sobre um cantor de música country decadente; Antes de Partir (2007), sobre idosos doentes querendo viver os últimos momentos da vida; e até Amor Sem Escalas (2009), embora este tenha uma abordagem distinta que o faz superior a muitos outros do gênero.

Cartaz original do filme

Além de tudo isso que já foi comentado, basicamente a falta de originalidade do roteiro e as piadas insistentes, a fita não se destaca por mais nada. Possui atuações corretas pela maioria do elenco, exceto por Malkovich que sustenta o filme. De resto, é o que é.

Direção: Sean McGinly
País: EUA
Ano: 2008

Elenco: John Malkovich, Colin Hanks, Emily Blunt, Steve Zahn, Griffin Dune, Tom Hanks
Produção: Tom Hanks, Gary Goetzman
Roteiro: Sean McGinly
Fotografia: Tak Fujimoto
Trilha Sonora: Blake Neely

Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar (Non Ma Fille, Tu N’iras Pás Danser)

Recheada de simbolismo e pouco preocupada com a narrativa, a fita garante um bom retrato das relações humanos. Entretanto, talvez por essas mesmas razões, a história segue arrastada e pouco envolvente.

Avaliação: razoável

Típico filme que poderia ser enquadrado no estereótipo cult, o novo longa-metragem Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar (Non ma Fille, Tu n’iras Pás Danser, França, 2009), de Christophe Honoré, retrata alguns problemas pessoais e familiares optando pelo uso carregado de simbolismos.

De início, somos apresentados a Léna (Chiara Mastroianni) que tenta tomar conta de seus filhos prestes a embarcar para a casa de seus pais, com intuito de passar umas férias, após ter deixado o emprego e o marido. No entanto, em meio aos palpites e conflitos com outros membros da família, sobretudo sua mãe (Marie-Christine Barrault), a vida de Léna não parece se estabilizar muito bem. Para piorar, sua mãe ainda convida Nigel (Jean-Marc Barr), o ex-marido de Léna, para passar alguns dias lá também.

Chiara Mastroianni no papel de Léna: talento para o seu papel

Sem se preocupar muito com a narrativa, a história, que não possui um fim propriamente dito, apenas dá conta de retratar o momento conturbado que Léna estava passando, mostrando sua incapacidade para lidar consigo mesmo e com sua vida.

Outra prova de que o diretor Honoré não se preocupava com a narrativa é a opção de interromper a história por uns quinze minutos para contar a lenda de uma jovem moça que pretendia se casar, mas só o faria se arranjasse um homem que conseguisse dançar com ela por doze horas seguidas.

Léna com sua irmã (Marina Föis) e seus filhos

Assim como quase tudo no filme, esse conto é uma metáfora da situação de Léna e, possivelmente, a inspiração para o título do filme. Há outros simbolismos presentes, por exemplo, o pombo machucado encontrado na estação que Léna, por insistência do seu filho Anton (Donatien Suner), aceita cuidar, mas que acaba morrendo.

E aqui entra o papel das crianças. O menino parece, às vezes, mais maduro que a própria mãe. Em certo momento, diz a ela “Sem drama, mãe” e, ao contrário do que costuma acontecer, é ele quem lê o conto da jovem moça para ela. Se a Chiara Mastroianni, filha do grande astro do cinema italiano, consegue manter bem sua atuação no filho, o ator mirim que interpreta seu filho também o faz muito bem.

Cartaz original do filme

No entanto, o filme segue arrastado demais e a indefinição, tanto das relações entre os familiares, quanto de um problema mais objetivo para a protagonista, acaba tornando-o cansativo para o espectador. Não é um filme interessante, envolvente, e nem os diálogos despertam muito a atenção.

Construir um enredo baseando-se no próprio sentimento confuso da personagem principal pode até ser uma boa ferramenta para criar uma atmosfera mais real, embora carregada de simbolismo. É fato que o filme bate na mesma tecla, mesmo assim, é como se saímos da sessão indiferentes à história de Léna.

Direção: Christophe Honoré
País: França
Ano: 2009

Elenco: Chiara Mastroianni, Marina Foïs, Marie-Christine Barrault, Louis Garrel, Jean-Marc Barr, Fred Ulysse, Julien Honoré, Marcial Di Fonzo Bo, Alice Butaud, Donatien Suner
Produção: Béatrice Mauduit
Roteiro: Geneviève Brisac, Christophe Honoré
Fotografia: Laurent Brunet
Trilha Sonora: Alex Beaupain

Anticristo (Antichrist)

Pesado, explícito e todo construído sobre problemas psicológicos, o filme utiliza uma história promissora como pano de fundo para uma coletânea de cenas chocantes, cuja legitimidade pode ser questionada. Profundo ou apenas exagerado? As intenções do diretor são uma incógnita.

Avaliação: regular

Altamente polêmico, o longa-metragem de Lars Von Trier, diretor dinamarquês que dirigiu obras-primas como Dogville (2003) e Dançando no Escuro (2000), parece ter sido feito para chocar. Anticristo (Antichrist, Dinamarca/Alemanha/França/Suécia/Itália/Polônia, 2009) é um drama psicológico com forte toque de terror. A título de curiosidade: o roteiro, assinado pelo próprio diretor, foi escrito durante uma depressão profunda. Qual é o resultado, portanto?

Sequência de abertura: tragédia prenunciada

Abrindo com uma ótima cena de início, um casal sem nome faz sexo. Filmada em câmera lenta, preto-e-branco e fundo de música clássica (Lascia Ch’io Pianga de Georg Friedrich Händel), a sequência já nasce com alto impacto visual. A tragédia, presente ao longo de todo o filme, começa já nos primeiros minutos com o filho do casal conseguindo escapar do berço e indo em direção à morte que o espera através da janela do sobrado da família. Assim encerra-se o prólogo, como a própria fita dividida em capítulos nomeia.

Após a morte do seu único filho, a mãe (interpretada por Charlotte Gainsbourg) entra em luto profundo. Seu marido (papel de Willem Dafoe), sendo psicólogo, resolve ele mesmo desenvolver um tratamento com sua esposa. Para isso, decide levá-la até uma casa de campo na Floresta de Éden para que a mesma enfrente seus medos. Os problemas da mulher aumentam, entretanto, chegando à loucura, o que coloca em risco a sua vida e a de seu marido.

Charlotte Gainsbourg num papel cheio de perigo e insanidade

Anticristo é um misto de sensações. Não dá para sair indiferente a todas as cenas fortes e algumas até bizarras que se vê. Há quem ache o filme brilhante, na sua capacidade de retratar com profundidade a depressão, o sofrimento e a insanidade. Há outros, porém, que pensam que todas aquelas barbaridades as quais a plateia é submetida não se justificam. Enquadro-me mais no segundo grupo.

É inegável que o filme explora bem o silêncio, já que a trilha sonora aparece bem pouco, e contém uma belíssima fotografia, assinada por Anthony Dod Mantle (Quem quer ser um milionário, 2008). Incluem-se também os ótimos enquadramentos e, enfim, todo o virtuosismo cinematográfico de Lars Von Trier está presente nesta obra. Isso sem contar o ótimo desempenho do elenco, focado em apenas dois atores que contracenam na maior parte do tempo.

O marido psicólogo (Willem Dafoe) sofre nas mãos da mulher

A despeito de ser uma obra muita bem realizada, há muitos exageros e cenas apelativas que, a meu ver, não convencem tamanha a grosseira a qual invocam. A cena da perna, por exemplo, que facilmente será lembrada por quem a assistiu, puxa para um lado Jogos Mortais que é impossível ser levado a sério. O mesmo na cena em que a raposa fala com o protagonista. O que aquele animal significa? Dentro da lógica torpe do filme, até pode-se entender. Mas não, não é mesmo necessário.

É de se esperar que o público dê risada nestas cenas pretensamente sérias. Risadas do quê? Talvez de desconforto, de protesto. O filme tem méritos, é claro. Há sacadas inteligentes, que trazem à tona mais sensações do que pensamentos. O choro da criança, a raposa extirpando-se, o cervo parindo um feto. Enfim, uma coletânea de cenas medonhas estão a serviço desse tratamento todo especial a um tema delicado que aqui é tratado sem tabus.

O confronto entre a loucura e o suposto tratamento

Tudo no filme é um paradoxo proposital: as cenas explícitas de sexo intercalam-se com fortes momentos de violência, o tratamento psicológico pouco funcional (talvez pela própria descrença do diretor a esse tipo de terapia). A própria sequência de início apresenta essas antíteses: um momento de intimidade que está relacionado à geração de vida é a causa da negligência que resulta em morte. Tudo isso é apresentado sob um tom depressivo, intenso e bastante psicológico.

O título do filme, embora não explícito, é possível de se deduzir conforme o psicólogo vai tirando novas conclusões sobre o suposto tratamento. Mas não espere um tratado contra os cristãos. É mais fácil aproximá-lo do niilismo que o filósofo Nietzsche desenvolve nas suas obras. Uma delas, não por coincidência, se chama O Anticristo.

Cartaz do filme

Para concluir, por mais que essa esfera obscura seja explorada de um jeito diferente, muitas cenas parecem não ter a noção do ridículo, esbanjando uma repugnância barata. O instante em que o marido se esconde da mulher em uma toca, por exemplo, chega a estimular várias risadas. Como conciliá-las com o resto da fita? As intenções de Lars Von Trier com Anticristo são difíceis de serem entendidas. Até que ponto essa complexidade denota uma profundidade plausível ou um exagero da vontade de ser degenerado?

Direção: Lars Von Trier
País: Dinamarca/Alemanha/França/Suécia/Itália/Polônia
Ano: 2009

Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg
Produção: Meta Louise Foldager
Roteiro: Lars Von Trier
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Direção de Arte: Tim Pannen