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Musicais: ChicagoNine

23 / julho / 2010

Embora sejam dirigidos pelo mesmo diretor, os dois musicais são muito diferentes em termos de qualidade. As principais razões são: qualidade do enredo, desempenho do elenco e qualidade dos números musicais. Leia para entender por quê.

Veterano na Broadway, o diretor Rob Marshall possui um jeito bastante peculiar – e não necessariamente virtuoso – de dirigir seus musicais. Técnicas semelhantes foram utilizadas em duas produções lançadas pelo norte-americano nesta última década.

A primeira, Chicago (Chicago, EUA, 2002) fez um sucesso estrondoso, conquistando seis estatuetas do Oscar (incluindo Melhor Filme). O segundo, pelo contrário, Nine (Nine, EUA, 2009) teve baixo reconhecimento e recebeu muitas críticas. Neste artigo, pretendo comparar os dois musicais e entender por que o primeiro é superior ao segundo.

Sinopses

Cena do musical Chicago

Chicago traz a temática da busca pela fama. Passando-se na cidade que dá título ao filme, vemos um cabaré, em que a famosa cantora e dançarina Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones) apresenta-se sozinha em um número que deveria dividir com sua irmã. Não se demora para descobrir que ela a matou, junto com seu marido. Na prisão, fica na mesma ala que sua admiradora Roxie Hart (Reneé Zellweger), a qual matou o amante na mesma noite.


[Vídeo da canção “I can’t do it alone” de Chicago]

Encarceradas, ambas recebem o apoio de Mama (Queen Latifah), a chefe da Ala das Assassinas que, além de companhia, oferece as oportunidades para sair da prisão, apresentando a elas o grande advogado de defesa Billy Flynn (Richard Gere), que nunca perdeu um caso e sempre consegue tirar qualquer assassina da prisão, usando a imprensa, as brechas da lei penal, suas clientes e, vale a pena destacar, o ambiente de Chicago.

Cena do musical Nine

Nine, por sua vez, baseia-se na principal obra do cineasta italiano Federico Fellini, o longa-metragem (1963). Retratando os dilemas de Guido Contini (Daniel Day-Lewis), um diretor de cinema em crise de inspiração, a fita traz suas maiores questões à tona: os problemas com sua mulher (Marion Cotillard), o envolvimento com sua amante (Penélope Cruz), a pressão dos jornalistas que tentam enxergar uma fase de decadência etc. Mesclando o processo de produção do filme de Contini com lembranças das mais variadas, a ideia é dar luz a todas as culpas e responsabilidades que o protagonista enfrenta.

Elenco e enredo

Ambos os filmes contam com um bom elenco, mas o desempenho deles variou brutalmente. Chicago conta com a atuação precisa de Zeta-Jones, que consegue dar um ar de superioridades à sua personagem mesmo nos piores momentos. Sua performance parece ser a de uma antagonista quando, no contexto do enredo, Velma Kelly acaba sendo uma vítima. Ótima atuação, que rendeu-lhe um Oscar.

Zeta-Jones e Zellweger: elenco afiado de Chicago faz diferença

Ainda traz a atuação eficiente, porém sempre estranha, de Reneé Zellweger, que constrói uma personagem bastante caricata. Os seus exageros podem ter incomodado algumas pessoas mas, tendo em vista que fazia o papel de uma obcecada pela fama, esses extremos são aceitáveis. O destaque fica por conta de Richard Gere, o qual dá um show. Queen Latifah manda muito bem como uma chefa aparentemente autoritária que, no fundo, sente atração pelas mulheres detidas. Em suma, o elenco de Chicago está, acima de tudo, bastante afiado nos seus papéis.

Não pode se dizer o mesmo de Nine: tirando Cotillard, Cruz e, em alguns momentos, Day-Lewis, o resto está perdido no seu papel. Estou me referindo à Nicole Kidman, à Judi Dench, à Sophia Loren e outras. É raro dizer que Judi Dench está sem graça, justo ela, que tem tantas atuações marcantes, como em Notas Sobre um Escândalo (2006). Nicole Kidman, por sua vez, consegue passar de atuações brilhantes, como em As Horas (2002) para as macabras, dentre Austrália (2008).

Elenco feminino de Nine: uma ou outra ali salva

A principal diferença entre os dois filmes, que influencia em todo resto, especialmente no desempenho do elenco (não basta o ator ser bom: a sua personagem tem que se encaixar na história) é o enredo ou, mais precisamente, o sentido de tudo aquilo que estamos vendo. Chicago, neste ponto, ousa bem menos que Nine, mas cumpre seu objetivo. Partimos do pressuposto que a fita se propõe a contar uma história de fama, prisão e justiça em Chicago. Então, ótimo, porque é exatamente isso que ela faz, de um jeito divertido, dinâmico e envolvente.

Nine, na tentativa de ir além, ousando abarcar a principal obra de Fellini, frustrou complemente, resumindo-se a mostrar moças bonitas cantando músicas numa história que até tenta mas, infelizmente, não dá liga. Não existe uma linha de desenvolvimento clara neste filme. Chegam a parecer aleatórias as apresentações, como se fossem uma soma de esquetes cômico-musicais.

Técnica de se construir o musical

O diretor Rob Marshall é coreógrafo e diretor de teatro. No cinema, ele parece trazer muitos dos elementos teatrais para a grande tela, o que dá um tom diferente, mas nem sempre funciona. Na realidade, quase todos os musicais cinematográficos vieram de versões teatrais, mas a adaptação faz toda a diferença.

Em O Fantasma da Ópera (2004), temos um bom exemplo de uma produção sem tantos elementos teatrais: é um filme musical. Isto porque as tomadas, o modo dos personagens interagirem, os esquetes musicais, o cenário, enfim, o conjunto lembra muito mais um filme do que uma peça de teatro. Um exemplo oposto é Cats (1998), a filmagem de uma peça, no qual o cenário é nitidamente um palco e os atores interagem como se houvesse espectadores logo à sua frente.


[Vídeo de canção “Be Italian” de Nine]

A verdade é que Rob Marshall, talvez pela sua bagagem, não consegue – ou até hoje não pretendeu – eliminar a sensação de se estar num teatro assistindo-o. Isto é o que a crítica Isabela Boscov chamou de proscênio (isto é, a frente do palco). Mas essa técnica funciona muito bem em Chicago, mas não em Nine. Por quê?

Chicago: uma produção com sentido

Porque Chicago foca na personagem de Reneé Zellweger. Almejando o sucesso inspirado numa famosa cantora e dançarina de cabaré, ela sempre se imagina no palco. Bem como o faz quando conhece alguém ou vive alguma situação. As músicas não fazem parte da cena em si. Elas estão a serviço da imaginação, são idealizadas pela protagonista e pelo próprio ambiente.

É como se as músicas estivessem em um universo paralelo onde reinam as sensações. Assim, se estou de mau humor, vou cantar com raiva; se sou soberano, me imponho no palco. Todo esse misto de estados influenciam no modo de cantar, na letra da música, na instrumentação etc.

Nine: peca pela falta de liga

Em Nine, o mesmo artifício foi utilizado, isto é, a música como uma segunda realidade. Mas não se obteve o mesmo resultado. A principal razão é que Chicago é pensado num cabaré, onde há um palco, enquanto que Nine se trata da produção de filmes, não havendo tanto sentido explorar o teatro. Além disso, as canções eram quase todas executadas num estúdio de filmagem que servia como palco para uma suposta apresentação.

Para terminar a análise, não há dúvidas de que as músicas de Chicago são muito melhores, especialmente as letras. As canções de Nine eram, para ser bem direto, cafonas. Talvez só não sejam mais cafonas que as de Moulin Rouge (2001) (os defensores desse musical que me perdoem: por mais que Moulin Rouge tenha todo um aspecto inovador, ele não deixa de ser absolutamente cafona e irritante.)

Conclusão

O diretor Rob Marshall

Logo, as principais razões que explicam porque Chicago é um musical de melhor qualidade em relação a Nine são: qualidade do enredo, uma vez que Chicago fez muito mais com muito menos; desempenho do elenco, que variou bastante talvez por influência do primeiro fator (história que não dá sentido aos personagens enfraquece sua atuação: por mais que seja boa, parece sempre descontextualizada); e qualidade dos números musicais, tanto pela composição das músicas quanto pela sensação de se estar em frente ao palco, o que funcionou muito bem em Chicago e mal em Nine.

Todas essas diferenças fazem com que se veja Chicago como um ótimo musical: muito bem produzido, com boas canções, um ritmo envolvente, montagem bastante interessante, ótimo roteiro etc. Enquanto que a Nine só cabem as lembranças de que aquele diretor já conseguiu fazer coisas melhores.

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4 Comentários
  1. Oi, Adriano

    Parabéns pelo texto!

    Ótimos argumentos, diretos e com embasamentos, sobre as distinções destes dois filmes. Sem sombra de dúvida, Chicago vence…até de longe é perceptível o quanto ele se mantém com vigor, imponente…e é uma delícia de se ver, rs!

    Discordo de ti, somente, quanto à Moulin Rouge!
    Gosto muito e considero as músicas – novas e releituras – saborosas, boas de se ouvir e cantar! bem mais que as de Chicago, inclusive!

    Mas, em termos técnicos, Chicago vence mais…e eu diria que no emocional, Moulin tem mais este aspecto…pois, lida mais com o romantismo e sentimentalismo…e isso instiga mais, atrai, provoca!

    Abraço

  2. Oi Cristiano,

    Aí que está o ponto: não senti nada de emotivo em Moulin Rouge. Achei o musical sem graça, com músicas chatas (as releituras eram cafonas) e uma história besta. Se for para apelar para emoção, prefiro mil vezes O Fantasma da Ópera, esse sim um filme romântico, com boas músicas, bem trabalhada.

    Achei Moulin Rouge muito sujo, porque tinha tantas coisas misturadas que ficou poluído demais, muito disforme.

    Abraços!

  3. Nine é um filme fraco, chato, com bons atores em péssimas atuações e um resultado que faria Fellini gorfar no caixão

  4. Rodolfo Correia permalink

    Gostei muito da crítica e por incrível que pareça me deu vontade de assistir ‘Nine’ para eu fazer uma comparação pessoal entre os dois. Obrigado!

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